No rescaldo das legislativas

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 14 Março 2024
No rescaldo das legislativas
  • Alexandra Moreira

No ano em que se comemoram os 50 anos da Terceira República, o país abandonou o bipartidarismo e mudou de rumo político, virando à direita e desafiando a robustez democrática. O resultado eleitoral não foi propriamente uma surpresa, mas será um decisivo teste de responsabilidade governativa e parlamentar.
Embora ainda sem a contabilidade eleitoral completa, é quase certo que Luís Montenegro será o próximo Primeiro-Ministro e que irá liderar um governo minoritário. A nossa República tem história de governos minoritários, dos quais apenas dois concluíram a legislatura.
Bem mais grave do que o previsível encurtamento da longevidade governativa, é aquilo que se antevê como um período de extrema turbulência parlamentar, protagonizada pelos deputados do terceiro partido mais votado, mas que se tem como o grande vencedor das eleições.
É sintomático todo o banzé de ameaças e chantagens que o líder dos “anti-sistema” tem desfilado nos últimos dias, com vista a ascender ao governo (do “sistema”). Diz André Ventura que é uma questão de “respeito” pelos seus 18% de eleitores, caso contrário votarão contra o orçamento do Estado (isto, sem sequer ainda o conhecer). Pela mesma lógica, ou falta dela, e muito mais peso eleitoral, estaria agora Pedro Nuno Santos a reivindicar o mesmo, ancorado nos seus mais de 28% de votos.
A propósito, tem sido ventilada uma teoria que, na sua formulação abstrata, é obviamente acertada: ostracizar o adversário é fortalecê-lo. Vai daí, passando ao caso concreto, a solução devia ser uma aliança governativa com o Chega.
Em tese, acredito na eficácia dessa estratégia como forma de expor os populistas demagogos que, na verdade, não têm soluções realistas para o país e nem quadros à altura. O problema dessa teoria é o resultado prático: os incomportáveis custos. É que a cartilha desses senhores funda-se na “moral, pátria e família natural” dos “portugueses de bem”, para utilizar o seu próprio léxico, com o anunciado objetivo de derrubar a Terceira República e fundar uma outra (certamente parecida com a do Estado Novo).
Como é que se chama para o governo um partido de práticas desordeiras e pantomineiras, que alimenta e se alimenta de intolerância, que quer impor a “prisão perpétua”, a “castração química”, a “pena de inibição da líbido”, obrigar os imigrantes a descontar durante 5 anos para poderem ter algum benefício, entre muitas outras propostas inaceitáveis?
Não se trata de “cerca sanitária”, trata-se de evidente incompatibilidade de princípios e práticas.
Que fique claro: só há um vencedor das eleições e cabe-lhe escolher a melhor solução governativa, buscando amparo onde seja possível.
Caberá, por sua vez, à oposição democrática o difícil equilíbrio entre a vigorosa fiscalização da atuação do governo e a atitude responsável de salvaguardar o interesse nacional. É essa, afinal, a linha de conduta que tem sido, e continuará a ser, prosseguida pela líder do meu partido, o PAN, Inês Sousa Real.

Até para a semana!

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com