Noite de empates

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 08 Outubro 2020
Noite de empates
  • Alberto Magalhães

 

 

Empate a zero no Portugal-Espanha, ontem à noite; empate também, esta madrugada, na refrega entre os candidatos ao lugar de vice-presidente dos EUA. Como o jogo era amigável e o debate não parece ter mexido grande coisa nas hipóteses das candidaturas, digo-vos um poema que, apesar de escrito em 1942, em plena II Guerra Mundial, se mantém extremamente actual. De Jorge de Sena, Ideário para a Criação:

Quando, em ti próprio, ouvires algum combate

do sonho em luta com a sua própria alma

e o mundo te parecer maior que a vida

e a vida te parecer a velha estrada

onde só tu não perseguiste o sonho,

defende, de ambos, o que for vencido.

Quando, à tua beira, houver um perseguido

e o escárnio se abater sobre o que ele pensa

e o mundo inteiro perseguir mentindo

uma mentira maior que a dessa ideia

defende-a como tua antes que o mundo

esmague em si próprio a chama em que se ateia.

Quando, como hoje, os crimes forem tantos

que as praias sequem no desdém das ondas,

e o melhor homem for um criminoso

voltando ansioso ao local do crime,

e o sangue nem lhe suje ansiedade

porque não há mais sangue que ciências loucas,

grita aos ventos da morte que os traíram –

e na terra se ouça que a verdade é falsa

e só era verdade os que partiram.

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