O 25 de Abril ou isso

Terça-feira, 21 Abril 2020
O 25 de Abril ou isso

 

Imagino que possa ter sido a inveja, pueril e por isso piedosamente compreensível, por não poder estar na AR a comemorar o 25 de Abril ao lado de alguns privilegiados, que levou a que muitos vociferem que este ano não devia lá haver comemorações oficiais da implantação da Democracia em Portugal.
Ou isso, ou a oportunidade para suspender simbolicamente o espírito de Abril, o tal que até passou a permitir vociferações. Ou isso, ou o orgulho ferido do zelo com que fiscalizam as cautelas do distanciamento social no seu dia-a-dia como acham, ou têm a certeza absoluta dos déspotas, de que mais nenhum cidadão do bairro o faz. Ou isso, ou a desconfiança de que um cidadão por 25m2 num lugar fechado permita a normalidade que conseguimos manter, evitando um ainda maior descalabro da economia e da saúde mental colectiva. Ou isso, ou o desejo de que a normalidade do trabalho de alguns, mesmo condicionada como acontece em muitos locais de trabalho, não possa conter momentos de celebração, como o são as comemorações do 25 de Abril na AR. Ou isso, ou o paleio de que os deputados não servem para nada, o que é argumento anti-democrático e diferente do “estes” deputados não servem para nada e que leva a alguns irem ciclicamente votar para que mudem ou se mantenham, que é o que permite também quem não vai votar. Ou isso, ou não ter percebido que entre 12 de Abril e 25 de Abril se passaram 13 dias, o que, no controlo sanitário e também social de uma pandemia, quer dizer alguma coisa sobre a gestão do Tempo. Ou isso, ou viver iludido de que são os festejos religiosos que invariavelmente dão oportunidade a um fim-de-semana prolongado que levam a ajuntamentos na Páscoa. Ou isso, ou não terem reparado que no Vaticano houve comemorações da Páscoa, tão fechadas ao público de fiéis este ano como, todos esperamos, serão as do 25 de Abril. Ou isso, ou não respeitarem o facto de que para muitos de nós as cerimónias transmitidas em espaços simbólicos, seja uma basílica ou um parlamento, ouvindo homilias ou discursos políticos, tão oficiais uns como outros, são também uma forma de continuarmos a comemorar. Ou isso, ou estarem-se nas tintas para toda e qualquer comemoração simbólica, de qualquer espécie, porque o que importa é a sua vidinha, com o menos chatices possíveis pois claro (quem não?!). Mas para isso não vale a pena terem trabalho a vociferar. É que se arriscam a parecer mais comentadores de bola do que defensores de princípios como o do cumprimento da lei.
Posto isto, é isso mesmo – o cumprimento da lei – que eu espero ver no dia 25 de Abril de 2020, dentro ou fora da AR. Sem beijar de cruzes. Desculpem, sem ajuntamentos festivaleiros. Quanto a mim, que é o que menos importa porque continuo a assistir pela TV essa, este ano única, comemoração da Democracia, sabe-me bem, poder ouvir mais gente a dizer “25 de Abril sempre” do que uma qualquer atoarda mais moralista do que intelectual, mais tribalista do que nacional. Ou isso, ou mais nacionalista do que patriótica.
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

 

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