O 4º Poder

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 14 Fevereiro 2022
O 4º Poder
  • Maria Helena Figueiredo

 

É através da Televisão que a informação chega à maioria das pessoas e é cada vez mais a responsável pela formação da opinião pública.

Aquilo a que temos assistido nestes últimos dias nas televisões é mais um escandaloso aproveitamento sensacionalista do caso de um jovem perturbado, que vivia num mundo virtual de ataques a escolas e que sonhava, também ele, tornar-se num desses terroristas. Veremos como a Justiça vai tratar estes actos preparatórias e o caso que é qualificado de terrorismo. Até lá já a vida deste jovem e da família foi devassada na praça pública.

Mas este é apenas mais um dos casos de aproveitamento e tratamento inaceitável de uma notícia e que é um sintoma do estado degradado da comunicação social, um estado que é perigoso para o próprio regime democrático.

Nas redacções não temos hoje jornalistas como Cardoso Pires ou Assis Pacheco; as redacções são hoje compostas maioritariamente por jornalistas jovens, precários, logo sujeitos a pressões e mais submissos se quiserem manter os postos de trabalho, e fora as “estrelas” dos noticiários televisivos, os jornalistas são hoje mal pagos.

Nos últimos tempos temos sido, sucessivamente, bombardeados por uma deriva noticiosa, sensacionalista que desestabiliza, manipula e, nalguns casos, cria alarme social.

São as audiências obtidas, as guerras dos “share”, que determinam o valor da publicidade que vendem, e que transformaram uma informação com rigor feita por jornalistas em espectáculo noticioso como a que hoje assistimos.

Mas é também a utilização do poderoso meio que é a comunicação social para grupos económicos manipularem a opinião pública em defesa de interesses próprios, com painéis de comentadores macaqueando pluralidade, mas que alinham maioritariamente pelo mesmo diapasão e, mais grave, criando personagens políticas, que saltam da ribalta dos programas de futebol para o debate político e para as instituições da democracia.

Veja-se que quando procuramos ver as notícias nos diversos canais televisivos assistimos às mesmas notícias, com alinhamentos noticiosos iguais, intervalos simultâneos e a exploração durante horas e tantas vezes em “directos” que exploram até à náusea as “notícias”, casos judiciais, crimes ou casos que mais se aproximam de entretenimento que de informação.

Neste ambiente geral, não é de estranhar que aquilo há poucos anos chamávamos de lixo noticioso ataque agora a maioria dos órgãos de comunicação social, começando nas televisões privadas mas em que a televisão pública acaba por também embarcar.

A existência de uma Comunicação Social forte, independente dos poderes económico e político, com jornalistas bem preparados e independentes, que possam informar com rigor e em liberdade é crucial para que possamos ter uma opinião pública esclarecida e exigente.

Sem isso, podemos ter a certeza, é o próprio regime democrático que ficará em perigo.

Até para a semana.

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