O Anel do Pescador

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 29 Março 2019
O Anel do Pescador
  • Alberto Magalhães

 

 

Ontem, dei por mim a pensar nos Papas de que me lembro. João XXIII, que morreu quando eu tinha 11 anos, era uma joia de pessoa na opinião de minha mãe, a qual, por essa altura, ainda era para mim inquestionável. Paulo VI, que visitou Fátima em 1967, conseguiu impressionar o meu pai que, pouco dado a missas, acedera em participar no 13 de Maio desse ano. A morte inesperada de João Paulo I, que esteve Papa apenas 33 dias em 1978, provocou em mim, já adulto, e em muita gente, o aflorar de uma teoria da conspiração muito pouco católica. João Paulo II, de longo pontificado e importante na derrocada do império soviético, e Bento XVI, que abdicou em vida, sempre me pareceram demasiado conservadores e, ao mesmo tempo, demasiado conciliadores com os abusos sexuais de menores que, entretanto, foram sendo denunciados.

O Papa Francisco já por mais de uma vez me impressionou. As suas tentativas para alterar o rumo de uma instituição pesadíssima e milenar, com pequenos gestos cheios de significado, podem não ser suficientes para salvar uma igreja em crise profunda, mas não deixam de ser admiráveis.

Acusado agora de não respeitar o antiquíssimo costume de lhe beijarem o anel, fez saber que gosta de abraçar e ser abraçado e não gosta de ser tratado como “relíquia sagrada”, pois é “o vigário de Cristo e não o imperador romano” e o ritual do beijo, além de sinal de submissão é muito pouco higiénico.

Que sirva de inspiração a todos os devotos que, por esse mundo fora, fazem fila para beijar relíquias, santos e santinhas, misturando salivas e micróbios e confiando na protecção divina para anular o perigo de contágios.

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