O ano do porco

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 07 Fevereiro 2019
O ano do porco
  • Eduardo Luciano

 

 

Cumprindo-se a espécie de profecia contida na minha primeira crónica deste ano, a coisa promete uma descida vertiginosa a um inferno conhecido e reconhecido e há uma espécie de gente que povoa um sub mundo de ignorância, de insensatez, de má-língua, de hipocrisia, de suspeição construída com meias palavras (porque a difamação ainda é crime), que está a tirar a cabeça de fora e a sentir-se muito confortável com ar que respira e partilha com os outros seres humanos.

A política, esse espaço nobre de participação cívica, é agora emporcalhada com “opiniões” e afirmações onde a ausência de seriedade parece ser a nota comum de quem se acha moralmente com o direito de julgar os outros à luz das suas pequeninas ambições pessoais e da mesquinhez com que se alimentam.

É assim que temos construções fantasiosas nas televisões, repetidas pela acefalia construída por uma rede comunicacional que faz da isenção uma espécie de tapete de entrada onde qualquer candidato a ser classificado como fascista (no sentido da definição de Eco no seu texto de 1997) se dá ao luxo de limpar a lama que traz colada aos sapatos.

Claro que também estou a falar da insidiosa campanha contra os comunistas que agora parecem poderem ser criminalizados por terem emprego, ou uma empresa, ou relações de trabalho seja com quem for, ocultando, ou melhor, varrendo para debaixo do chiqueiro de néon a verdadeira corrupção, nepotismo e controlo do aparelho de estado por parte dos donos da sua criação.

Claro que também estou a falar da vergonhosa campanha contra um país independente, com o seu presidente eleito a ser apodado de ditador ao mesmo tempo que vemos imagens de dirigentes oposicionistas rodeados de comunicação social, em plena liberdade, a pediram mais sanções económicas contra o seu povo.

Imaginemos a cena a acontecer em Portugal durante o fascismo e depressa conseguimos perceber o que é e o que não é uma ditadura.

Umberto Eco, no tal texto de 1997, escrevia que “o Ur-Fascismo nasce da frustração individual ou social. Tal explica porque é que uma das características típicas dos fascismos históricos foi o apelo às classes médias frustradas, sentindo mal-estar por qualquer crise económica ou humilhação política, assutadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. No nosso tempo, em que os velhos proletários estão a transformar-se em pequena burguesia (e os lúmpenes se autoexcluem da cena política), o fascismo irá encontrar nesta nova maioria a sua audiência.”

Vinte e dois anos depois do semiólogo italiano ter escrito isto, a audiência está montada e cresce todos os dias. Na política internacional, nacional e local.

Sem terem consciência disso, milhares de pessoas reptem todos os dias para o mundo frases que podem ser consideradas plagiadas de discursos de Mussolini ou de outras figuras negras que povoaram a primeira metade do século XX.

Segundo o calendário chinês, o ano do porco ainda agora começou. Mas ainda não tinha começado e já a pocilga mediática fervilhava.

Até para a semana