O aprofundar da crise

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 10 Julho 2020
O aprofundar da crise
  • Rui Mendes

 

 

No passado dia 3 foi recebida a notícia que não queríamos ouvir, mas que todos já esperávamos. Portugal havia sido excluído dos corredores aéreos do Reino Unido, os quais permitem que os britânicos possam viajar para determinados destinos, sem que posteriormente tenham necessidade de cumprir um período de quarentena de 14 dias aquando do seu regresso.

Era a decisão esperada porque estava sustentada num indicador que em Portugal está no vermelho: número de novos infetados por 100 mil habitantes. Neste indicador Portugal está entre os piores da Europa, seremos o terceiro pior. Aliás, algo que aqui já havíamos alertado há várias semanas, quando referíamos que em alguns indicadores Portugal integrava o grupo dos piores na Europa.

Na região de Lisboa o número diário de novos infetados é deveras preocupante, como inquietante é os vários surtos de excessiva dimensão que vão surgindo em vários pontos do país, por vezes em zonas onde a situação estaria aparentemente calma, como é o caso de Reguengos de Monsaraz.

É certo que se aquela decisão fosse sustentada num outro indicador Portugal poderia ter condição para integrar a lista de países de corredores aéreos seguros do Reino Unido. Mas, o indicador era aquele e “todo” o Portugal o sabia.

Caiu por terra a teoria que somos o exemplo no combate à covid.

Caímos na nossa realidade. Que afinal não estamos tão bem quanto a nossa classe política governativa nos apregoa diariamente.

Mas este Governo só ouve os elogios e os autoelogios. O resto é para apagar, para obscurecer.

Algo parecido com o que aconteceu com as reuniões no Infarmed. Enquanto “promoveram” a ação do Governo foram desenvolvidas e elogiadas. Quando os técnicos lançaram dúvidas sobre algumas das justificações em que o primeiro-ministro se escudava, entendeu o Governo desvalorizar as reuniões e findá-las, as quais certamente teriam a importância de dar a conhecer a visão técnica do desenvolvimento da doença.

Tivesse o Governo feito e seu trabalho de forma mais competente e provavelmente Portugal não teria sido excluído da lista produzida pelo Reino Unido.

Tivesse o Governo mais sentido da realidade, e menos preocupação em fazer propaganda por tudo e por nada, e provavelmente Portugal não teria sido excluído da lista produzida pelo Reino Unido.

Tivesse o Governo sido mais comedido nas palavras e nas ações, não tendo dado sinais errados às populações, e provavelmente Portugal não teria sido excluído da lista produzida pelo Reino Unido.

Mas estamos excluídos, e agora o que se exige é que o problema seja resolvido de uma forma competente. Nada mais.

Ao invés de assumir mea culpa, o que o Governo português tem feito é passar as culpas aos outros. Desde logo ao Reino Unido por nos ter colocado fora da lista. E foram vários os membros do Governo a eleger esta linha de atuação, inclusive o ministro do Negócio Estrangeiros, o ministro que gosta de malhar.

A lista terá revisões regulares, pelo que a entrada de Portugal na lista será a salvação do nosso turismo, especialmente aquele que mais depende do turismo britânico.

É que o turismo britânico representa muito para Portugal, sendo de fundamental importância para o turismo algarvio.

Bélgica e Escócia ontem também impuseram restrições aos viajantes de Portugal.

Concorde-se ou não, teremos de entender o alcance deste tipo de decisões, as quais pretendem reduzir contágios por importação, assim como proteger as populações residentes.

Talvez com as reações destes países o Governo português desperte para a realidade e para a necessidade de atacar, em devido tempo, os focos que vão surgindo, porque o descontrolo terá consequências cada vez mais gravosas numa economia que tarda a “desconfinar”.

Segundo as recentes previsões da União Europeia Portugal sofrerá uma contração do PIB de 9,8%, acima da média da zona euro (-8,7%) e da média da UE (-8,3%), quando a previsão anterior se limitava a uma contração de 6,8%.

Estas atualizações vão refletindo também os resultados económicos das medidas tomadas, não só os efeitos de medidas externas, como a abertura das fronteiras ou restrições aos viajantes de Portugal, como as internas, como os custos sociais da covid, os reforços no setor da saúde, da envolvência do Estado na TAP, ou a nacionalização da EFACEC. Porque entendamos que todas as medidas têm um reflexo no PIB e, consequentemente, um custo que terá de ser suportado.

Tenhamos fé, porque de Governo temos cada vez menos.

 

Boas férias e até setembro porque esta rubrica será interrompida por motivo da programação de verão.

 

Rui Mendes

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com