O arco-íris da dignidade

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 19 Junho 2023
O arco-íris da dignidade
  • Bruno Martins

 

Pela primeira vez na história decorreu, em Évora, uma Marcha do Orgulho LGBTQIA+. É orgulho, é orgulho mesmo! E que emocionante que foi, a partir de Évora, e de cabeça bem levantada centenas de vozes reafirmarem que não tem de haver espaço para a vergonha, para o armário ou para a culpa. Vozes que salientaram que o profundo ser de cada pessoa merece o reconhecimento de existência plena e de dignidade na vida.
Associei-me, e tão bem acompanhado que estava, ao arco-íris da esperança e da luta, um arco-íris que chega, a cada ano que passa, a mais cidades do nosso país, que toma o espaço público, e que de coração aberto e com toda alegria, combate o ódio e o preconceito.
E sim, é orgulho, é orgulho mesmo aquele de saber que tem sido o movimento LGBTQIA+, a par com o movimento feminista, os grandes movimentos de resposta internacional ao crescimento do conservadorismo e da extrema-direita. E tão mal que estes sectores lidam com a tolerância. Os atos hediondos de violência que atentaram contra algumas das iniciativas do Évora Pride demonstram que o ódio está ao virar da esquina, mas a onda de solidariedade demonstrou que o derrotará.
E não, esta não é uma luta individual, e não, os avanços civilizacionais existentes nos últimos anos (que reconhecemos e valorizamos) ainda não são suficientes.
Pergunta-se: porque é preciso uma resposta coletiva, não sectária e solidária? Porque temos a tarefa coletiva de luta contra todas as formas de opressão e de exploração que o capitalismo nos impõe, não esquecendo que este se revela particularmente opressor e violento para as minorias. A discriminação, nas suas múltiplas formas e alvos, manifesta-se no acesso ao emprego com direitos, à habitação digna e à saúde, na violência física e psicológica e na desigualdade no seio de cada família e cada comunidade.
Não, não falamos de questões individuais, mas da necessidade da construção de solidariedades entre pessoas oprimidas, não pensando em torno de categorias estanques, mas em torno de um programa que responda pela igualdade e dignidade de todas as pessoas que vivem no nosso país.
É por isso que considero foco de esperança ter visto centenas e centenas de pessoas a marchar em Évora nesta luta de todas as cores. Porque sei que esta alegria contamina, porque sei que esta não é uma luta de categorias ou de gueto, mas antes uma luta pela dignidade na vida de todos nós.
Uma nota final: há vários anos que proponho na Assembleia Municipal, em nome do Bloco de Esquerda, que no dia 28 de junho (Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+) o Município proceda ao hastear da Bandeira Arco-Íris. Esta proposta tem sido recusada, mas este fim de semana a Assembleia Municipal de Évora finalmente aprovou uma moção que, para além de propor o hastear da bandeira, saudava a Marcha de Évora e a Comissão Évora Pride. Votaram a favor Bloco de Esquerda, PS, CDU e MICAZA. Enquanto que o PSD absteve-se, e CDS e Movimento Cuidar de Évora votaram contra. O Chega faltou à votação, mas como pode verificar, o CDS e o Movimento Cuidar de Évora trataram de substituir a extrema-direita. Ficaram acantonados do lado do ódio. Escolhas…
Mas seguimos, seguimos em frente, com alegria e determinação. O ódio não passará e a exigência da dignidade transformou-se, mesmo, numa onda que ninguém conseguirá parar!

Até para a semana!

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