O arranque do novo quadro político

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 04 Abril 2024
O arranque do novo quadro político
  • Alexandra Moreira

A cena política nacional decorrente das últimas eleições legislativas tem sido sintomática da falta de qualidade política e da imaturidade democrática de grande parte dos seus protagonistas.
Na semana passada, vivemos um impasse inédito na Assembleia da República. Esteve em causa um ato, até então pacífico, de eleição do Presidente desse órgão de soberania, o que só se revelou possível à quarta votação e após concertação entre PSD e PS plasmada numa solução rotativa.
Desse episódio rocambolesco extraem-se três evidências para memória futura, nenhuma das quais, afinal, constitui verdadeira novidade. A primeira é que o Chega e o seu líder não se coíbem de prejudicar o país, dando o dito por não dito, por mero capricho fútil. Por outro lado, Montenegro parece impreparado para governar o país, mais ainda num contexto de amplo diálogo, que omitiu aquando da eleição da segunda figura do país. Por fim, há que concluir que esse atabalhoado ambiente irá, com toda a probabilidade, marcar toda a XVI legislatura.
Esta semana, Montenegro, já na qualidade de Primeiro-Ministro (PM), saiu-se, de novo, mal. Refiro-me ao discurso de tomada de posse e ao desconchavo de pretender responsabilizar a oposição quando não adira às propostas do governo AD. Como se a oposição não tivesse o seu próprio ideário, o seu próprio caderno de encargos e o seu próprio eleitorado a satisfazer.
Esperava-se do PM de um governo tão minoritário, que conta apenas mais dois deputados do que o maior partido da oposição, mais sensatez, mais humildade, mais visão, mais perspicácia. Montenegro revelou-se sectário ao repristinar o léxico cavaquista, que classifica os opositores como “forças de bloqueio”, exortando, dramático, “deixem-nos trabalhar”.
É que de nada vale citar, a seguir, Luís de Camões ou o Papa Francisco quando a atitude é de uma soberba tragicamente suicida.
No mais, retive do discurso de Montenegro a perspetiva retrógrada que encara o crescimento económico e a proteção do Ambiente como pólos antagónicos, o que não augura nada de bom nem alinhado com o efetivo progresso.
Esta sexta-feira, iremos conhecer os secretários de Estado e, na próxima semana, será apresentado o programa do governo, completando o puzzle da governação, que nos permitirá adensar as perspetivas a esse respeito.
Algumas palavras finais para lamentar a ausência de grande parte dos líderes dos partidos com assento parlamentar, do centro à esquerda, na cerimónia de tomada de posse do governo. PCP e BE foram taxativos na recusa em comparecer. Pedro Nuno Santos e Rui Tavares fizeram-se representar. Apenas Inês Sousa Real esteve presente.
Tratou-se de um ato institucional de enorme relevo na vida de um país decorrente de eleições democráticas. Não está em causa se se gosta ou não do governo, ou se se concorda ou não com o ideário ou o programa da força política empossada. Está em causa, sim, o respeito pela própria democracia. No ano em que se comemoram os 50 anos do 25 de abril, nunca é demais lembrar, é triste constatar a miopia democrática que ainda afeta alguns protagonistas do espetro político-partidário.

Até para a semana!

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