O bulldog francês

Crónica de Opinião
Terça-feira, 11 Junho 2019
O bulldog francês
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Por razões que agora não interessam nada, fiquei a saber mais sobre esta raça de ser canino (para abranger cão e cadela) recriada pelo ser humano. Convém irmos conhecendo as várias espécies de diversos géneros sobre os quais o lobby político ganhou certa relevância na sociedade portuguesa, agora que parece que se enterrou de vez o partido d’ Os Verdes, de Portugal para a Europa. Aliás, talvez não seja muito errado pensar, pelo menos enquanto exercício académico, que os votos perdidos da CDU tenham sido os dos invisíveis mas militantes verdes da coligação que encarnou a sua representação e que se mudaram para o PAN. É que na CDU foram manchados de vermelho sangue-de-boi, que é aquele tom concentrado da cor, o que é apropriado para um movimento armazenado dentro de um Partido quase centenário, a envelhecer desde 1982.

Mas voltemos ao bulldog francês. A criatura é esteticamente um animal controverso. Como toda a Arte com maiúscula, bem entendido. Fica toda a vida com ar de cachorro e em cachorro já vem amarfanhado como um velhinho. Ao estilo Benjamin Button, a personagem ficcional que demonstra, numa das várias possibilidades de interpretação, o horror de se concretizarem dois “wishfull thinking” suspirosos: “Ó tempo volta para trás!” e “Quem me dera ser novo e saber o que sei hoje!”.

Eu já conhecia as dificuldades respiratórias dos bichinhos que com a alegria, tão boa quanto inconsciente de quem agradece constantemente por estar vivo mesmo sofrendo horrores, estampada naquele focinho, arfa ruidosa e aflitivamente para quem não está habituado ao seu convívio. Apetece logo pregar-lhe com uma máscara de oxigénio, tal o sofrimento que aparenta. Só a sua alegria desmedida e aqueles olhinhos redondos e deslumbrados enquadrados pelas orelhitas pontiagudas nos acalmam, parecendo dizer: “Está tudo bem! Qual é o stress? Anda mas é brincar!”.

O que fiquei a saber é que as companhias aéreas, que só admitem bichos até seis quilos junto dos donos, enviando os outros, os grandes e gordos que estão sempre tramados em qualquer género, espécie ou família de seres vivos ou minerais, para o inóspito porão da nave. Ora, com todas as dificuldades respiratórias que acompanha a pureza de pedigree de tão amado animal, parece que durante a viagem são mais que muitos os que caiem que nem tordos (outra espécie tão apreciada e perseguida pelo ser humano, o que dá aliás sentido à expressão idiomática).

Com o que aprendi de novo sobre a vida animal em sociedade (o resto conheço do convívio quotidiano de bichos que adoram os donos mesmo quando trocam entre si inexplicáveis “mimos” de amor), confirmei algo de que desconfiava há muito: é muito difícil, se não impossível, conciliar num mesmo grupo de identidades que se relacionam bem em determinado equilíbrio que a Natureza foi permitindo, alterando estatutos de cada um deles. Como Pessoas e Animais. Há associações que se esgotam nessa revisão estatutária e que se desequilibrarão. Serão quase espécies manipuladas geneticamente, forçando-se a criação de novas raças, até muito maneirinhas e bonitinhas, e muito amadas por muitos, e perde-se a oportunidade de tornar o mais saudáveis, sustentáveis e civilizados possível os exemplares já existentes da espécie – e refiro-me à humana. E que, quando vivia harmoniosamente com a restante Natureza foi ganhando, em pé de igualdade de oportunidade, o lugar que tem hoje. Isto, claro, salvaguardando o sempre presente risco de ela própria se auto-destruir, o que seria uma pena e levaria com ela outras espécies. Mas isso, por enquanto, é “sci-fi”.

Até para a semana.

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