O Centenário de Sofia

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 06 Novembro 2019
O Centenário de Sofia
  • Alberto Magalhães

 

 

Se ontem prestei modesta homenagem ao grande Jorge de Sena, é justo que hoje, dia em que Sofia de Mello Breyner faria 100 anos, lhe dedique também uma nota. Poetisa maior do país – não lhe posso chamar poeta, como ela quereria, pois o meu português não o permite – teve, ao contrário de Sena, a justa consagração em vida e está agora no Panteão Nacional. Chama-se Fúrias* um dos seus poemas de que mais gosto e é de 1988 (*Obra Poética, ed. Caminho, pag. 762).

Escorraçadas do pecado e do sagrado

Habitam agora a mais íntima humildade

Do quotidiano. São

Torneira que se estraga atraso de autocarro

Sopa que transborda na panela

Caneta que se perde aspirador que não aspira

Táxi que não há recibo extraviado

Empurrão cotovelada espera

Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar

Sem cabelos eriçados de serpentes

Com as meticulosas mãos do dia-a-dia

Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno

Sem rosto e sem máscara

Sem nome e sem sopro

São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parrícidas

Preferem vítimas inocentes

Que de forma nenhuma as provocaram

Por elas o dia perde seus longos planos lisos

Seu sumo de fruta

Sua fragrância de flor

Seu marinho alvoroço

E o tempo é transformado

Em tarefa e pressa

A contra tempo

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