O corporativismo médico

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 25 Outubro 2019
O corporativismo médico
  • Alberto Magalhães

 

 

Segundo o DN, a Ordem dos Médicos informou que existiram pelo menos 8 queixas contra o médico Artur Carvalho, já contando com a referente à criança que nasceu sem nariz, sem olhos e sem parte do crânio. Dois já foram arquivados. Restam os casos de 2013, 2014, 2015, 2017 e 2019. Isto se não contarmos com um, mais antigo, passado em 2007, relatado pelo jornal Público:

O bebé asfixiando no útero, a mãe sem dilatação suficiente e com dores que sabia anormais (não era o primeiro filho) e “por duas vezes o obstetra ordenou ao enfermeiro que lhe desse analgésicos, enquanto a mãe pedia que lhe fizessem uma cesariana, como sucedera com o primeiro filho. ‘Dêem-lhe chazinho, bolachas e um comprimido para as dores, que amanhã a médica dela resolve’ ”. Quatro horas depois, feita uma cesariana de urgência, a criança nasceu com graves problemas e faleceu com seis meses. O processo-crime não chegou a julgamento por falta de provas. O processo-cível, durou 10 anos e acabou com o réu absolvido, pois o colégio de obstetrícia da Ordem dos Médicos concluiu que fora seguida uma “terapêutica correcta e adequada”, que permitira a “sobrevivência” da mãe e da filha, embora esta “infelizmente com sequelas graves”.

Nem oito nem oitenta. Nos EUA, já chegaram aos oitenta. Os médicos são tão pressionados com processos que chegam a recusar intervir em casos problemáticos com medo de terem de pagar indemnizações milionárias. Em Portugal, vamos no oito. Um despudorado corporativismo da classe e uma justiça que o aceita sem contraditório.

Foi bonito o Bastonário da Ordem ter pedido desculpa aos portugueses, mas vai ter que explicar por que razão, em seis anos, a meia-dúzia de processos não se resolveram.

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