O dever de cuidar de quem cuida

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 07 Novembro 2022
O dever de cuidar de quem cuida
  • Bruno Martins

Caras e caros ouvintes da DianaFm, é com um enorme prazer que volto a participar neste espaço de crónicas semanais. Este será um espaço de opinião onde abordarei diferentes temas nacionais e locais, procurando promover a reflexão conjunta.

Nesta primeira crónica trago-vos um tema que me é particularmente caro – a situação dos cuidadores informais no nosso país.

Se está a ouvir ou a ler esta crónica é bem possível que seja um dos cerca de um milhão de portugueses que assume o papel de cuidador informal (25% dos quais a “tempo inteiro”). É bem provável que não tenha de imaginar, porque é provável que cuide diariamente do seu pai ou mãe, ou do seu filho ou filha, que pelas mais diferentes razões clínicas tem um grau de incapacidade que não lhe permite sobreviver sem a sua ajuda.

Se não é cuidador informal, com certeza que conhece alguém na família ou no seu círculo de amigos que prefere cuidar do seu pai ou mãe por não haver qualquer resposta social digna ou porque simplesmente não o/a quer colocar num lar. Ou conhece alguém que cuida do seu filho/a que tem deficiência, sendo os seus cuidados permanentes a prova de um amor maior.

O Estatuto do Cuidador Informal foi uma importante conquista em 2019. Um reconhecimento que consagrava direitos fundamentais a estas pessoas.

Mas infelizmente, e desde então, poucas pessoas conseguiram aceder ao estatuto de cuidador informal. Estamos perante um processo burocrático pesado, falta de informação e pouco envolvimento da estrutura governativa.

O acesso ao subsídio de cuidador informal seria o mínimo que poderíamos reconhecer aos cuidadores informais a “tempo inteiro”. Uma justa retribuição financeira a quem abdicou, tantas vezes, do seu trabalho e que tem despesas acrescidas pelo cuidado que fornece. Mas o Governo do Partido Socialista tem falhado a estas pessoas. Não executa o previsto nos diferentes Orçamentos do Estado e não tem uma palavra para estas pessoas.

Mas há quem não se esqueça. O Bloco de Esquerda não tem esquecido estas pessoas e em plena época em que se discute mais um Orçamento do Estado, promoveu, na passada semana, na Assembleia da República uma Audição Pública onde participaram dezenas e dezenas de cuidadores informais. São vozes que têm de ser ouvidas, vidas que têm de ser dignificadas, e pessoas que também têm de ser cuidadas.

Falhar a quem cuida é um duro golpe a um Estado Social. É por isso que sou mais uma voz que se junta à defesa de um Serviço Nacional dos Cuidados que garanta o real apoio financeiro aos cuidadores, mas que também preveja a existência de equipas especializadas descentralizadas que prestem um apoio pontual aos cuidadores informais, permitindo que estes tenham a possibilidade de ter algum tempo para si mesmos.

Cuidar de quem cuida. É nosso dever enquanto sociedade.

Até para a semana!

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