O dilema nacional

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 09 Novembro 2023
O dilema nacional
  • Alexandra Moreira

O dia 7 de novembro assinalou um mês desde o regresso da guerra ao Médio Oriente, com mais de 10 mil mortos, e sem tréguas à vista.
Ninguém imaginaria que a efeméride seria suplantada por um acontecimento doméstico sem precedentes: o Primeiro-Ministro (PM) demitia-se, na sequência de uma nota de imprensa emitida pela Procuradoria-Geral da República (PGR) que dava conta de estar a ser investigado.
E eis que, em menos de nada e sem pré-aviso, o país vê-se mergulhado numa crise política complexa, sem que se veja luz ao fundo do túnel.
Por suprema ironia, um dos governos de mais alargada legitimidade democrática de sempre, revelou-se, afinal, um dos mais frágeis de que há memória.
Nos últimos dois dias, o país vem assistindo a um autêntico carrossel mediático em torno do assunto, ou melhor, das especulações sobre o assunto, enquanto as redes sociais fervilham com os julgamentos sumaríssimos habituais.
Os ânimos irão serenar já esta quinta-feira, quando o Presidente da República anunciar a solução que preconiza para o imbróglio político. Tudo aponta para que se decida pela dissolução do parlamento e marcação de eleições antecipadas, a via preferida da maioria das forças políticas com assento parlamentar.
Mas essa solução é em si mesma um sério problema. Basta constatarmos a ausência, no panorama político atual, de alguém com sentido de Estado, com competência e capacidade para liderar um governo.
Foi ver a pressa inicial com que algumas forças políticas, da direita à esquerda, se apressaram a reclamar eleições. É que nem ao menos ponderaram algo tão essencial para o país como a aprovação do Orçamento do Estado, exceção feita à líder do PAN, Inês Sousa Real.
Ora, se nem na oposição essas forças políticas mais numerosas conseguem brilhar frente a um governo medíocre como o de António Costa, imagine-se se fossem governo!… E já nem me refiro a uma certa direita extremada e arruaceira cuja postura confere com a parca substância.
A solução da formação de um governo de iniciativa presidencial, que não tem colhido grande adesão e não será decerto a opção do Chefe de Estado, teria valiosas vantagens.
Designadamente, poupava o país à indefinição política continuada e aos elevados custos de umas eleições, salvaguardando igualmente os processos legislativos em curso, incluindo a revisão da Constituição.

Não posso, por fim, deixar de manifestar perplexidade relativamente ao comunicado da PGR, na lacónica parte concernente ao PM. É que ou há indícios ou não há indícios de prática ilícita. E se não foram, até à data, colhidos indícios suficientes, após quatro anos de investigação, fica sem se perceber a urgência da PGR em provocar uma previsível crise política no mais inoportuno momento, tanto mais que esse processo ainda irá correr pelo Supremo Tribunal de Justiça.
Os próximos tempos serão de respostas, esperemos é que nos cheguem em tempo útil.
Até para a semana.

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