O direito à viagem

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 12 Julho 2018
O direito à viagem
  • Eduardo Luciano

 

 

Vamos entrar num tempo que se convencionou chamar de férias. Corresponde teoricamente a um período em que alteramos as nossas rotinas e ansiamos por abandonar o espaço onde vivemos e trabalhamos habitualmente.

Alguns de nós imaginam uma viagem sem rumo, para descobrir coisas novas, viver outras experiências, sem tempo regulado nem tarefas a cumprir.

Muitos de nós associam a ideia de férias à viagem e à descoberta. Muitos de nós não cumprimos esse sonho o número de vezes que deseja nem nas condições que idealizou.

Mas viajar é absolutamente essencial e devia ser considerado um direito humano a considerar numa segunda lista de direitos, chamemos-lhe de segunda ou terceira geração.

Enganam-se os que acham que estou a falar apenas de mudar de sítio ou atravessar paralelos e meridianos, até porque há quem faça milhares de quilómetros e não consiga sair da estreiteza das ruas da cidade onde habita.

Falo de abrir horizontes e isso pode acontecer sem sair de casa, apenas com um livro, um bloco de notas e pouco mais.

Viajar é, mais do que um desejo para mudar de local, uma ansiedade por conhecer outras paragens geográficas ou culturais, uma disponibilidade para mergulhar no que não existe na rotina diária dos sobreviventes.

Diria que é possível viajar sem andar um metro e ficar paradinho percorrendo quilómetros e derretendo Mega bites de imagens fotográficas de locais que coleccionamos.

Dizem-me que para viajar é preciso ter condições para o fazer e que a maioria não se pode dar a esse luxo. Por razões diferentes concordo com essa afirmação.

De facto só é possível viajar se existir disponibilidade de tempo, condições financeiras e ter sido educado ao longo da vida para a essencialidade do querer conhecer para além dos nossos estreitos horizontes da existência mais dura e básica.

Quem pode estar disponível para viajar depois de horários de trabalho de 10 ou 12 horas diárias e com salários pouco mais que miseráveis?

Quem pode estar disponível para viajar se durante toda a sua vida lhe foi ensinado apenas um conceito de viajante e se esse só se alcança nos filmes ou em quem tem salários muito acima da média?

Pois é, esta parece ser uma crónica de um diletante que resolveu discorrer sobre conceitos diversos de viagem e viajante e provavelmente até pode ser entendida assim.

Mas se pensarmos bem, aproxima-se mais uma discussão do orçamento de estado e é crucial que o partido do governo cumpra o que acordou com os partidos que possibilitaram a solução política que permitiu afastar os partidos da direita do poder.

É neste momento que faz sentido não abdicar de exigências como a semana de 35 horas para todos os trabalhadores, um aumento significativo do salário mínimo, a recuperação de direitos que foram roubados durante os anos de chumbo da troika, mais investimento no serviço nacional de saúde e na escola pública.

Viajar é preciso, é urgente e é essencial. Para viajar é preciso tempo, rendimento disponível, saúde e a consciência de que é a viagem que nos torna melhores.

Seja a viagem para o outro lado do mundo, para um concerto, uma livraria ou uma sala de cinema.

O meu desejo é que viagem muito nestas férias e todos os dias. Que se bronzeiem por dentro e por fora e que ganhem balanço para lutar contra a tentação de ficarem presos na armadilha do lugar seguro, real ou imaginário.

Já agora, os que estiverem em Évora aproveitem para ocupar as ruas e viajarem connosco por muitos lugares e paragens descobrindo mundos fantásticos de arte e cultura. É um festival e não é nada disso. É uma provocação e chama-se Artes à Rua.

Até Setembro