O direito ao disparate odioso

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 02 Abril 2020
O direito ao disparate odioso
  • Alberto Magalhães

 

 

Evelyne Beatrice Hall publicou, em 1906, um livro intitulado Os amigos de Voltaire onde, tentando resumir a posição do famoso precursor da Revolução Francesa em relação ao seu amigo Helvétius, outro filósofo francês, tratou de pôr na boca de Voltaire a frase que ele nunca disse, mas poderia bem ter dito: “posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até à morte o seu direito a dizê-lo”.

Muito boa gente, cheia de bons princípios e boas intenções, pensa que existem ideias tão odiosas, tão abomináveis, que devem ser, pura e simplesmente, erradicadas da face da terra, ou melhor, da rede comunicacional global. Ora, a verdade é que sempre existiram boas pessoas, cheias de bons princípios e boas intenções, que queimaram livros e eliminaram pessoas, para impedir a circulação de ideias que julgavam ser indignas de defesa. Na minha juventude, li muito livro clandestino, de ideias consideradas subversivas, de autores malditos, como Karl Marx ou Lenine, que hoje se encontram nos alfarrabistas ou nas feiras, a preços de saldo, e ninguém compra. Depois, já em democracia, assisti à proibição de A Minha Luta, um livro escrito por um imbecil para ser lido por imbecis e que agora se vende livremente, sem atrair ninguém de juízo.

Nos anos mais recentes, assisti indignado à implantação, na lei de vários países ocidentais, incluindo Portugal, dos chamados crimes de ódio, alicerçados em bons princípios, defendidos por boa gente, com o propósito de erradicar ideias odiosas da rede comunicacional… e, no entanto, elas crescem, incluindo a ideia odiosa de que não devemos permitir a expressão de ideias odiosas.

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