O direito de ser diferente sem perder direitos

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 03 Janeiro 2019
O direito de ser diferente sem perder direitos
  • Alberto Magalhães

 

 

No primeiro dia do ano, no estado de Kerala, no sul da Índia, cerca de 5 milhões de mulheres formaram uma parede humana com 620 quilómetros de comprimento. Protestavam contra a proibição da entrada nos templos hindus a mulheres que estejam em idade de menstruação – por definição legal entre os 10 e os 50 anos. Claro que a razão, para os hindus, é simples: as mulheres menstruadas são impuras e, por isso, não devem participar em rituais religiosos.

Ora, apesar de, em Setembro passado, o Supremo Tribunal da India ter considerado esta lei inconstitucional, as mulheres que se atrevem a desafiá-la continuam a ser alvo de perigosas agressões. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, diz que a decisão do Supremo Tribunal vai contra os valores do hinduísmo e insiste na defesa da lei.

Mas desenganem-se os que pensam que a “impureza” da mulher menstruada é uma idiossincrasia do hindoísmo. Ainda há 150 anos atrás seria das crenças mais partilhadas em todo mundo. Que digo eu? Nos anos 50 do século passado, as mulheres menstruadas não podiam, em Portugal, entrar numa adega onde fermentasse vinho, sob pena de darem cabo da produção.

Dito isto, deixem-me dizer também que afirmar, como fazem vários órgãos de comunicação social, portugueses e não só, que as mulheres indianas lutam pela igualdade de género é uma patetice. Elas querem, ao invés, que a sua diferença seja aceite em plenitude e não lhes retire o direito de entrar nos templos.

Ontem, duas mulheres em idade fértil entraram no templo de Sabarimala, em Kerala. Foram as primeiras.

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