O discurso de dissolução

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 05 Novembro 2021
O discurso de dissolução
  • Alberto Magalhães

Pela primeira vez em 45 anos, o OE não foi aprovado”. Começou assim o discurso de ontem do Presidente da República, que formalizou o anúncio da dissolução da AR e da marcação de eleições para 30 de Janeiro. Depois, foi demolidor: na situação de crise pandémica – e consequentes crises económica e social – e na conjuntura irrepetível de um pacote alargado de fundos comunitários que é imperioso gastar bem e sem atrasos, era especialmente importante ter o OE aprovado. Além disso – mas não menos importante – não foi um qualquer o modo de rejeição. E sublinhou: a rejeição deixou sozinho o partido do Governo; dividiu por completo a sua base de apoio e ocorreu logo na primeira votação; foi uma rejeição por divergências maiores, de fundo, inultrapassáveis, tanto assim que “pesaram mais que a especial importância do momento vivido”.

Voltando agora à recente sondagem da Aximagem, lembremos que, se apenas 25% dos inquiridos discordaram da intenção do Presidente dissolver o Parlamento, uns robustos 53% afirmaram que teriam gostado de ver o PS negociar um novo OE com o PSD, ideia essa que não agradou apenas a 30% dos inquiridos.

Em resumo, seja porque os acordos com o PS são venenosos para o BE e para o PCP, seja porque estes, tal como o escorpião, são incapazes de resistir à sua natureza (no caso, de protesto anti-sistémico), seja porque a Esquerda é uma ficção conceptual, contendo projectos que, por tão divergentes, se mostram incompatíveis, como bem sublinhou o Presidente da República, era bom que o país encontrasse uma alternativa e se deixasse de geringonças.

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