O espaço público e a conspurcação privada

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 05 Julho 2018
O espaço público e a conspurcação privada
  • Eduardo Luciano

 

 

A partir de uma determinada altura deixei de utilizar as redes sociais como forma de tornar públicas as minhas opiniões, gostos e emoções.

Passei a usar a minha página pessoal apenas para tornar pública esta crónica e para partilhar acontecimentos públicos que entendo serem de realce.

Há uns dias não resisti e fotografei uma funcionária municipal que varria uma montanha de beatas que acumulou com um soprador, para valorizar a sua função e questionar as pessoas que conspurcam o espaço público com um simples gesto.

A propósito desta minha tentação li os mais díspares comentários e recebi as mais diversas sugestões.

Desde a crítica aos cidadãos que tratam o espaço público como espaço de ninguém até aos que culpam a câmara por não disponibilizar cinzeiros fixos ou mesmo portáteis como se vê, segundo alguns, naquele sítio mítico onde tudo é bom. O estrangeiro.

Depois muita gente veio sugerir que se aplicassem coimas aos prevaricadores, o que pressupunha a existência de um ou dois fiscais para cada fumador e a instalação de um regime policial que permitiria controlar todos os que atiram lixo para o chão, colocam os sacos ao lado do contentor, urinam nas esquinas ou danificam o património propositadamente.

Percebo que pareça mais eficaz o recurso à coerção quando parece incrível que alguém suje o espaço público sem se questionar sobre o efeito que essa atitude tem na qualidade de vida de todos. Mas ainda que tal fosse possível será que seria desejável a instalação de um regime policial ainda que para um fim que parece bondoso?

Também houve quem sugerisse a distribuição gratuita de cinzeiros portáteis para evitar a tentação de atirar as beatas para o chão.

Não sei se funcionará esta sugestão, mas se fosse eficaz talvez devêssemos também distribuir umas mochilas em forma de contentor para distribuir pelos cidadãos que atiram papéis para o chão ou um escarrador portátil para colocar ao pescoço de quem cospe para o chão.

Sem por em causa a bondade de sugestões e críticas parece-me que a questão central não está na disponibilização de material de recolha e ainda menos na distribuição de fiscais e policias pelas ruas aplicando coimas.

A questão fundamental encontra-se na percepção de que o espaço público tem dono e que o dono somos todos nós. Não estou a imaginar alguém apagar o cigarro no chão da sua casa apenas porque não há cinzeiro disponível ou cuspir para o chão da sala porque não existe recipiente próprio para o efeito.

Por muito estranho que pareça a solução está na educação pelo respeito do espaço de todos. Bem sei que nesta sociedade que híper valoriza a propriedade privada essas coisas são secundárias e da responsabilidade de alguém que, de preferência, possamos criticar de forma genérica e anónima.

Também houve quem dissesse que a culpa morre solteira, porque ninguém quer ser responsável pela situação. Lamento mas aqui a culpa não morre solteira. O culpado de uma beata ir parar ao chão é de quem a atira e os culpados de existir lixo à volta dos contentores é de quem lá o coloca.

A eficácia ou existência de medidas dissuasoras podem e devem ser corrigidas, mas a sua existência ou ausência não afasta ou privilegia a culpa de ninguém.

Até para a semana