O Eterno Retorno

Terça-feira, 23 Janeiro 2018
O Eterno Retorno

Hoje a crónica é sobre assunto de bairro e questões de dinheiro, aquelas matérias que têm sítio próprio para se resolver sem ser preciso guinchar ao mundo, a não ser que seja uma espécie de acção de campanha de angariação de adeptos, entre o alecrim e a manjerona, ou um assomo de queixinhas, algo pueril.
Eis senão quando Évora volta a ser falada nos jornais nacionais de grande tiragem. Assunto? Capital Europeia da Cultura 2000 e tal em força? O capote alentejano Património da Humanidade? O prémio da cidade portuguesa mais limpa? Nada disso. De repente, na era de todos os dados informatizados, cruzados, disponibilizados, escrutinados, o Sr. Presidente diz, em Janeiro de 2018, que descobriu uma dívida inesperada, uma surpresa de cinco milhões de euros, mais coisa menos coisa, bem escondida. Vai-se a ver e, desses cinco, 3,3 estão bem à vista e serviram várias vezes, num eterno retorno, de arma de arremesso que bem jeito deram a quem venceu as duas últimas eleições autárquicas e, já agora e a sério, serviram para transformar o sistema de abastecimento de água ao concelho, urgência que, em parte, justificou o negócio oneroso. Ficaram 1,7 milhões, esses que apanharam de surpresa o Sr. Presidente e restante Executivo, muito embora se tenham mantido desde 2013, altura em que tomou posse pela primeira vez, os técnicos responsáveis quer pelas finanças, quer pelos assuntos jurídicos da instituição. Das duas, uma: ou se prepara uma varridela no quadro de pessoal ou há um montante de alguns milhões de euros que seriam necessários para calar a contestação dos Eborenses e não se quer usar. Mas já agora uma explicação com dados históricos e não com um magicar de desculpas.
Esta dívida tem a ver com habitação social e remonta ao ano de 2004, altura em que se definiram lotes para construção no Bairro das Coronheiras. Aquilo andou embrulhado, com a falência da empresa construtora. Quando nesse mesmo ano se constituiu a empresa municipal de habitação e se consolidou o seu funcionamento, parada a obra e mantida a dívida, esta passou naturalmente da Câmara para a empresa. Diz que ninguém sabia e que nem quando retomada a obra, concluídas e entregues as casas se soube. O que eu sempre soube é que quer o IHRU, instituto nacional com estas competências, quer a empresa municipal mantiveram até 2013 negociações, intermitentes mas concretas, pressionando da parte do município a resolução que permitisse construir habitação social para os munícipes eborenses. Acontece que só, e já, há um ano atrás, em Reunião Pública de Câmara de dia 1 de Fevereiro de 2017, a propósito da conclusão e atribuição de casas nesse bairro, o Sr. Presidente informou, e cito, com “ agrado o facto daquele problema, que se arrastava há alguns anos, estar resolvido e que resultou do facto da Hagen ter falido razão pela qual durante anos ficaram 60 fogos sem poderem ser utilizados. Foi finalmente resolvido um diferendo que existia com a Câmara (…)”. A pergunta seria, então: qual é a dúvida? E não qual é a dívida.
Quem quer fazer obra, investir, usar o dinheiro para fins públicos e necessários não vem usá-lo numas coisas e dizer, depois, que afinal já não tem. Eu não sei, ou posso até só desconfiar, quem querem enganar com estas descobertas… Até parece o “outro” a dizer que o Partido dele não é um clube de amigos, nem uma agremiação de interesses individuais. Todos uns ingénuos, portanto, e que se apresentam prontos para varrer os maus, que até usam a mesma farda mas com quem não querem ser confundidos. Estejam atentos, se ainda tiverem paciência! Até para a semana.

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