O frio no Inverno é uma coisa estranha

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 08 Fevereiro 2018
O frio no Inverno é uma coisa estranha
  • Eduardo Luciano

Está frio e não me apetece nada escrever crónicas. Apetecia-me antes estar debaixo de uma manta, a ler um livro ou mesmo a olhar sem ver enquanto a música preenche o espaço. Para que não digam que estou armado em intelectual da treta, também não descuraria a possibilidade de ficar a ver uma série televisa enquanto um fio de baba escorreria por um dos cantos da boca.
Apesar de não me apetecer mesmo nada escrever crónicas, não podia falhar esta que poderá ser considerada a comemorativa de doze anos consecutivos a ocupar parte das noites ou madrugadas de quarta-feira a escrever e gravar aquilo que alguns irão ler ou ouvir no dia seguinte.
Por falta de apetite para a produção de crónica, vou apenas abordar coisas óbvias que não necessitam de qualquer reflexão muito apurada e como está frio começo por constatar que fazer um alarido infernal, apenas porque está frio no Inverno, lançar avisos coloridos e agitar perigos óbvios, não aquece nenhuma casa, não dá refeição quente a ninguém que dela precise, nem resolve o problema básico da falta rendimentos, de uma significativa parte dos portugueses, que não permite pagar a electricidade ou o gás que os manteriam mais confortáveis, perante algo tão estranho como… frio no Inverno.
Alertar para o frio no Inverno é tão útil como alertar para o facto da CIP e da UGT coincidirem em opiniões durante as jornadas parlamentares do CDS, ou achar estranho que todos os partidos, com excepção do PCP, tenham concordado com o reforço da representação das grandes potências europeias no Parlamento Europeu.
Achar estranho o frio intenso no Inverno, será tão empolgante como estranhar que as instituições europeias entendam que as leis laborais em Portugal não protegem suficientemente a vontade de despedir a bel-prazer.
Noticiar que está frio, ou apelar para que se use roupa quente quando está frio, tem o mesmo apelo do insólito que noticiar a convergência de PS, PSD e CDS para travar a reposição do valor das horas extraordinárias.
Noticiar o óbvio contraria aquele princípio, muito querido de alguns, de que a notícia interessante é a que surge da dentada do homem no cão.
A verdadeira notícia não é a de que está frio, mas a da pobreza exposta ao frio pela existência de uma sociedade iníqua que promove a desigualdade e se compraz com medidas de emergência devidamente publicitadas.
O verdadeiro e útil apelo não é para a utilização óbvia de roupas quentes quando está o frio que todos sentimos, mas o apelo que lutemos pelas mudanças necessárias.
Fico-me por aqui, porque como vos disse no início não me apetece fazer crónicas com este frio de rachar.
Alguém ao meu lado afirmou, é preciso gostar muito de escrever para conseguir escrever uma crónica sobre a ausência de vontade de escrever.
Às vezes é mesmo gosto, outras vezes é tarefa camarada. E como aprendeu a minha prima Zulmira, tarefa é tarefa.

Até para a semana

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