O incómodo das bandeiras

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 11 Março 2021
O incómodo das bandeiras
  • Eduardo Luciano

 

 

No passado sábado muitas das cidades e vilas do país amanheceram engalanadas com bandeiras do Partido Comunista Português, que decidiu ser aquela a forma mais eficaz de celebrar o seu centenário.

As reacções foram as esperadas. Uns ficaram felizes por tamanha demonstração de vitalidade, outros não gostaram mas cerraram os dentes e engoliram em seco, outros destilaram ódio e destruíram património demonstrando o que fariam se um dia regressassem ao exercício do poder.

Não há surpresas perante estes três tipos de reacção. Talvez a grande surpresa venha daqueles que vivem com dois registos e dois discursos. Nas redes sociais indignaram-se e fizeram coro com os que clamaram pela morte dos comunistas e que aplaudiram actos de vandalismo em património público, juntando achas para uma fogueira que se continuar a arder também os vai consumir, enquanto noutros fóruns menos públicos ensaiavam o discurso da tolerância.

É natural que as bandeiras do PCP os incomodem. Na verdade, incomodam há cem anos e pelas mesmas razões.

Imagino o que não devem ter sentido os esbirros da ditadura quando no dia 28 de Fevereiro de 1935 uma bandeira vermelha apareceu desfraldada ao vento na chaminé das oficinas da CP, no Barreiro, a 40 metros de altura.

Se houvesse Facebook o que não seria de falatório contra o atrevimento. Não havendo falou-se menos, muita gente foi presa, espancada e entregue à PVDE.

Décadas depois, em pleno regime democrático, já não é possível chamar a GNR e o Presidente da Câmara já não pode convocar o comandante dos bombeiros a exigir que algum “voluntário” vá retirar a bandeira, mas há quem sonhe com isso, mesmo sem saber que esse sonho é um pesadelo insuportável.

Respeito os que dizem não gostar mas não lhes passar pela cabeça proibir ou ter atitudes persecutórias e mostram até respeito pela ousadia, lembrando que foi essa ousadia em tempos muito mais difíceis que lhes garante hoje o direito a não gostar e a dizê-lo sem medo.

Já tenho alguma dificuldade em respeitar aqueles que se afirmam contra o discurso do ódio e a extrema-direita mas acham que os actos de vandalismo são uma consequência da afirmação de um Partido no momento de comemoração do seu centenário.

Quereriam provavelmente que a comemoração fosse mais discreta, coisa “lá entre eles” e que não marcassem o espaço público com a sua presença, porque os “portugueses de bem” não têm que suportar tal afronta.

Esses democratas, que parecendo não ser carne nem peixe, são o combustível que alimenta o discurso do ódio que dizem não tolerar. Uns fazem-no de forma inconsciente, outros são mesmo aquilo que no Alentejo se apelida de velhacos.

Até para a semana

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