O lítio do nosso descontentamento

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 15 Novembro 2021
O lítio do nosso descontentamento
  • Alberto Magalhães

 

 

Por uma vez, dei comigo a concordar com o ministro do Ambiente. Em entrevista a uma rádio da capital, Matos Fernandes defendeu que Portugal e a Europa não se podem dar ao luxo de não explorar as reservas de lítio que possuem, minimizando, obviamente, o mais que ser possa, os impactos ambientais decorrentes dessa exploração.

De facto, a atitude, tão vulgarizada hoje em dia, de contar com os benefícios da transição digital, desde que o lítio para as baterias dos nossos telefones, portáteis e tutti quanti, sejam retirados das entranhas da Terra lá prós lados da América do Sul, da Namíbia ou do Zimbabué, acaba por ser economicamente estúpida, ecologicamente incoerente, além de manifestamente egoísta.

Economicamente estúpida pois, em vez de tirarmos rendimento do nosso lítio, de preferência desenvolvendo indústrias a jusante da sua extracção, querem que o importemos. Ecologicamente incoerente pois ao mesmo tempo que nos incitam a comprar alimentos produzidos perto de nós, querem usar o lítio extraído além-mar. Manifestamente egoísta, deixando para o terceiro-mundo os eventuais impactos negativos das operações de extracção.

Em resumo, em vez desta luta contra a exploração de lítio, onde já se enxergam aldeias a morrer, populações sufocadas e rios envenenados, o bom senso aconselharia a vigilância sobre os impactos ambientais e a exigência de que o lítio extraído não fuja, em bruto, para o estrangeiro, antes sirva para alimentar, no país, uma fileira industrial com rentáveis tecnologias de futuro. É que estamos mesmo a precisar de dinheiro!

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