O logro da opinião pública

Crónica de Opinião
Terça-feira, 09 Abril 2019
O logro da opinião pública
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Eu sou do tempo do pós-25 de Abril em que toda a gente falava de Política. Muitas pessoas quase analfabetas discutiam a sua opinião fazendo ressalvas sobre o não perceberem nada daqueles assuntos, mas… E quando os interlocutores eram de uma elite que tinha passado os anos precedentes a 74 a ler e discutir clandestinamente sobre assuntos proibidos, invariavelmente a resposta a esse auto-apoucamento era de louvor à livre expressão de opinião. Louvava-se a forma como o estavam a fazer, argumentando em público sobre como gerir a coisa pública, já que em Democracia isso era fazer Política. Bem entendido que esse foi o tempo em que a percentagem dos que acorriam às urnas nas eleições fazia desses dias verdadeiros dias de romaria e festa.

Era a infância da Democracia em Portugal. Essa idade de ouro que muitos olham com uma certa nostalgia. Uma nostalgia que se pode revestir de duas faces: a realisticamente pessimista que lhes retira as expectativas de que alguma vez a Democracia seja o adulto que tão feliz infância prometia; e a realisticamente oportunista que continua a dizer que dá voz a todos, mas que acaba por usar para si mais umas vozes que outras, resultando a habilidade que para calar umas as outras berrem desalmadamente. E isto, obviamente, não faz nada bem ao ambiente que se quer adulto, sem ser cinzento – ou vermelho, porque o que importa não são as cores mas a monotonia das mesmas. Quando se mistura tudo não se dá atenção a nada. Na mesma lógica, o que é de todos não é de ninguém. E isto, em Democracia, é muito perigoso.

Vir dizer que a opinião pública está mais exigente e escrutinadora é enganar as pessoas. Tal como chega dizer às pessoas o que é permitido ou proibido em Democracia, o que se despenaliza e o que se liberaliza, porque as pessoas exigem integridade e transparência. E depois esquecer-se que já houve momentos em que quem diz isto, como foi caricaturado, dizia que “é proibido, mas pode-se fazer”. Tudo isto para agradar a quem é a favor e a quem é contra e, numa chicana, vender-se a todos como se o todos fossem uma massa que se deseja informe e mais fácil de moldar. Populismo, é o que se chama a isto.

Tratar a opinião pública assim como uma confusão de vozearias e, quando útil, promovê-la a fiel da balança de políticas públicas, usá-la usando os seus imponderados e epidérmicos argumentos, que tantas vezes lhe são injectados por elites bem organizadas e quando dá mais jeito, é um logro, uma intrujice, uma peta. Mas, hélas!, essa opinião pública, assim aconchegadinha, é a que, quiçá, se dará ao trabalho de ainda ir votar. E é por isso que o voto obrigatório já foi para mim uma realidade menos necessária e mais distante.

A opinião pública tem o seu quê de lirismo, e eu explico porquê. Quem não estuda literatura – um campo com técnicas, métodos, história e teoria próprios – poderia dizer que aquele menino que, quando a escola não era a tempo inteiro ao terminarem as aulas não tinha ninguém em casa com quem ficar, dizia que ficava “fechado na rua”, estava a fazer poesia. Não estava. A frase bonita que disse era apenas reveladora de uma incompetência linguística, um ainda imaturo uso da linguagem, facilmente confundido com a capacidade de metaforizar. Esta é própria dos Poetas, aqueles que tantas vezes, como eu já também tantas vezes disse e não me cansarei de repetir, olha para o Mundo com um olhar inaugural, como se fosse a primeira vez, e lhe descobre o que está escondido ou esquecido. Como também não me cansarei de, na medida das possibilidades que estão ao meu alcance, contribuir para que a opinião de um que se juntando a outros, e eventualmente contribuindo para a opinião pública, seja baseada no uso do siso, usando as faculdades da razão, com a liberdade de ter a sua forma de, precisamente, pensar por si.

Até para a semana.