O mestre macaco e a língua portuguesa

Crónica de Opinião
Terça-feira, 23 Maio 2017
O mestre macaco e a língua portuguesa
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Parece que um dos novos fait divers são os erros e gralhas da tese de mestrado do multifacetado líder da claque dos dragões. Aquele que é conhecido no milieu como “Macaco” anunciou: “A partir de hoje têm de me chamar Mestre”. Terá passado mais ou menos despercebida esta graça cheia dela mesma, atitude, feliz ou infelizmente, cada vez mais vista nos nossos tempos. Digo felizmente porque é sinal de que os vários níveis de educação estão cada vez mais acessíveis a todos os que provem ter mérito para os obter, independentemente do berço ou meio social que frequentem. Digo infelizmente porque, para além de um sinal exterior sempre um pouco pirosamente pomposo, este alardear significa também que talvez sejam os únicos da família a consegui-lo, numa tantas vezes injusta exclusão de gerações e membros dessas mesmas famílias no acesso a essas oportunidades. Mas adiante.

O estranho que possa parecer a notícia só agora ser explorada, tendo o caso ocorrido há já alguns meses, mais precisamente em Novembro do ano passado, desaparece se estivermos atentos ao facto de o PM António Costa ter inaugurado na sexta-feira passada, semana em que o fait divers nasceu, umas instalações desportivas no instituto de ensino superior que conferiu o grau ao dito jovem. É que nem mesmo aquando do episódio com aquele clube de combate de nome Clube de Futebol Canelas de Gaia, ou coisa parecida, e de que o “Mestre Macaco” é um dos responsáveis, o caso académico cresceu. E isto, para quem queira fazer leituras mais profundas, há de ter a sua razão de ser. Mas adiante.

A tese é, parece-me, em Gestão do Desporto, como já tinha sido aliás a sua licenciatura na mesma instituição. O candidato parece ter levado a sua tarefa sempre com diligência (até porque lhe era matéria querida) o que, de facto, só pode ser provado e comprovado por quem lhe deu aulas e o avaliou, numa instituição que está para tal creditada, como tantas outras por esta Europa fora. Curioso que muitas das notícias que li na Comunicação Social mais insuspeita, onde quer que ela esteja, deram também elas mostra de muito desconhecimento das designações dos que são certificados, fazendo anteceder ao grau de Mestre a designação de Doutor em vez de Licenciado. O que tanto rigor puseram e exigiram noutros casos, curiosamente também de gabinetes governamentais, abandalharam aqui por completo. E chegamos ao que me interessa, porque é a única coisa que posso avaliar no que está disponível e circula por aí do relatório de conclusão do curso de mestrado do jovem: o abandalhamento também do uso da língua em que escreve.

Se bem que na opinião de muitos, que eu partilho sem particular militância e sobretudo por razões diferentes, o novo acordo ortográfico (novo porque “só” teve um período de discussão e implementação de 25 anos!) possa contribuir para um ainda maior abandalhamento do uso que fazemos da língua portuguesa, o que vemos são erros graves que têm pouco que ver só com ortografia. (E sim, eu sou das que acha que este AO90 podia ter sido uma verdadeira revolução ou, então, não serve para mais nada se não alimentar discussões entre o que parecem ser claques de académicos, mas adiante). É a outros níveis da gramática que verdadeiros pontapés de canhão são dados. É todo um cuidado que para tão importante obra, como o próprio aluno sente que é, não existe a vários níveis.

O abandalhamento parece, pois, estar a tornar-se um novo acordo de tolerância para justificar a vertigem da contemporaneidade, e não, não acontece só no mundo do desporto. Aliás, o que mais me tem chocado é ele aparecer, também neste uso da língua portuguesa, até em candidatos a políticos e alguns com formação superior, imagine-se, em educação. E isso sim é uma coisa digna de aldeia de macacos.

Até para a semana.

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