O mundo é governado por loucos?

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 03 Dezembro 2021
O mundo é governado por loucos?
  • Alberto Magalhães

 

 

No início dos anos 70, ainda estudante de engenharia, por motivos fortuitos tive a honra de colaborar com o Grupo de Teatro do Hospital Júlio de Matos. A peça, escrita por um internado, compulsivamente internado por ordem do Salazar, na versão do próprio, baseava-se na obra de Peter Weiss, “Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat representados pelo grupo teatral do hospício de Charenton sob a direcção do Senhor de Sade”, assim se chamava, hoje conhecida simplesmente como Marat / Sade”. Na versão encenada pelo saudoso João Silva no hospício lisboeta, a representação abria com um longo grito de um esquizofrénico que ainda hoje lá mora: “O mundo é governado por loucos”, gritava ele durante largos segundos, que pareciam minutos.

Lembro-me muitas vezes, por más razões pois decerto, deste aviso ao incauto espectador que se deslocava ao Júlio de Matos quiçá para ver um inofensivo teatro de maluquinhos. Lembrei-me no primeiro de Dezembro, a propósito da Comissária Europeia para a Igualdade, uma maltesa de seu nome Helena Dalli, que, em Outubro, se fez fotografar com uma publicação fresquinha intitulada “Directrizes para uma Comunicação Inclusiva”, uma coisa do género da que o nosso ministério da Defesa enviou para os quartéis e que depois o ministro considerou fazer desaparecer, para gáudio dos nossos marinheiros e das nossas marinheiras. E não é que, um mês depois, cansada de levar pancada (metaforicamente falando, claro), Helena Dalli, remeteu as “Directrizes”, de que tanto tinha dito orgulhar-se, para a condição de rascunho que “não correspondia aos padrões da Comissão”.

O principal sinal de loucura inscrito no documento era o pedido aos funcionários da UE para que, em vez do termo “Natal”, usassem a expressão “época das festividades”, mais inclusiva, porque (e cito) “nem toda a gente celebra os feriados cristãos e nem todos os cristãos os celebram nas mesmas datas”. Não consta que Helena Dalli tenha tido o mesmo cuidado com o islâmico Ramadão ou o judaico Hanukkah. Porque será?

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