O Mundo já está a arder?

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 28 Outubro 2019
O Mundo já está a arder?
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Nos últimos tempos os conflitos sociais multiplicam-se por todo o mundo e as causas – directas ou indirectas – têm um fundo comum, a desigualdade económica e a contestação politica.

Desigualdade económica fruto das políticas neoliberais, austeritárias, assentes em modelos de economia extractivista, acentuada pelo desmantelamento das políticas sociais e desinvestimento em saúde e escola públicas. Tudo ao mesmo tempo que se transferem recursos públicos para as grandes empresas, cada vez mais financiarizadas.

Segundo a Oxfam, no final de 2018 os 26 mais ricos do mundo tinham em seu poder tantos recursos como 3, 8 mil milhões de pessoas, ou seja a metade mais pobre da população mundial. E apenas num ano a riqueza dos mais ricos aumentou 12% e a dos mais pobres caiu 11%.

Se olharmos à volta, que vemos? Começa a haver uma revolta dos de baixo que vem crescendo contra o empobrecimento geral que é imposto.

Em França foram meses de protestos nas ruas com os “coletes amarelos” contra Macron, exigindo aumento do salário mínimo, das pensões e mais impostos para os ricos.

A América Latina está em grande efervescência com protestos e conflitos violentes que se estendem ao Chile, ao Equador, Bolivia, Perú, Paraguai e à Venezuela

No Chile, o protesto iniciado pelo aumento dos transportes, alastrou à contestação às desigualdades e ao elevado custo de vida e fez já 19 mortos, 500 feridos e cerca de 2.500 foram detidas. O Presidente Piñera acabou por pedir perdão à população e comprometer-se a alteração às políticas sociais.

Mesmo nos casos em que governos “progressistas” como a Bolívia ou o Equador se constituíram como alternativas ao neoliberalismo reinante, as inflexões políticas, muito determinadas pela intromissão dos Estados Unidos, acabaram por deitar por terra muita da esperança das populações.

No Equador o aumento dos combustíveis foi o gatilho para a contestação popular que se alargou à contestação das políticas austeritárias do Governo, que acabou a decretar o estado de excepção. O governo voltou atrás na medida e foi obrigado a negociar com os líderes indígenas, mas na contabilidade dos protestos ficaram 7 mortos, 1.340 feridos e quase 1.200 detidos e na Bolívia, onde 70% da população é pobre, as manifestações e bloqueios em período eleitoral sucederam-se.

No Brasil, depois do golpe que afastou Dilma Rousseff, o desmantelamento das politicas sociais e ambientais por Bolsonaro tem vindo a acentuar a contestação e os fogos na Amazónia vieram comprovar os priores receios.

Espera-se que estes movimentos sociais se robusteçam e obriguem a gerar políticas mais equitativas e justas.

Mas este revolta social é também um caldo propicio a derivas autoritárias e ao ressurgimento de governos de extrema direita com a compressão de direitos cívicos e o ataque à democracia. Trump nos Estados Unidos ou Bolsonaro no Brasil são focos de instabilidade permanente na região.

Na América Latina são tempos de luta. Luta contra as forças conservadoras e o neoliberalismo, luta pelos direitos dos trabalhadores e contra a ingerência externa. Mas também no Líbano, em Hong Kong ou na Catalunha estes são tempos difíceis, em que se luta pelos direitos civis individuais e também pelo direitos dos povos auto-determinação.

Umas e outras são lutas justas. Exigem por isso a nossa solidariedade colectiva.

Até para a semana!

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