O mundo piorou?

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 18 Fevereiro 2021
O mundo piorou?
  • Eduardo Luciano

 

 

Ausenta-se um homem por pouco mais de duas semanas e quando regressa ao mundo parece que tudo piorou.

Os discursos de ódio nas redes sociais acentuaram-se, o nível de intervenção na comunicação baixou, o número de comentadores e de opinadores cresceu muito mas a sua diversidade manteve-se, se é que não reduziu.

Nas televisões a linguagem atingiu níveis de simplificação quase tocar o apelo à indigência e, salvo raras e honrosas excepções, promovendo a adesão irracional a “notícias” de abertura de telejornal sem que exista a preocupação de aprofundar minimamente o que quer que seja.

O processo de vacinação, com as inevitáveis distorções e aproveitamentos de uma minoria que se acha intocável, tem sido pântano para todas as generalizações que pretendem passar a ideia de que “os políticos” estão a colocar-se na frente da fila e são “todos iguais”.

Acentuou-se a pesquisa de todas as falhas, confirmadas ou não, do Serviço Nacional de Saúde para construir a ideia de desgraça colectiva, quase sempre acompanhadas de entrevistas de personagens que alinham pelo mesmo diapasão. Já repararam que raramente se ouve a voz do contraditório ou se pesquisam as reais razões para as falhas?

A extrema-direita sentou-se confortavelmente no cadeirão da desinformação e da mentira e vê a sua voz amplificada por jornais e televisões que a tornam “respeitável” e “aceitável” aos olhos da maioria que continua a pensar: “se deu na televisão é porque deve ser verdade”.

Num acto que pode ser interpretado como legitimador, o Presidente da República foi ao funeral de um militar que tinha atrás de si histórias, testemunhadas por outros militares, de crimes de guerra cometidos durante a guerra colonial, onde terá sido particularmente cruel para com militares seus inimigos e populações civis.

Em Espanha prendem-se cantores por cantarem palavras que colocam em causa a monarquia e o Vox engole o PP no último acto eleitoral na Catalunha.

Poderia continuar mas acho que já perceberam onde quero chegar.

Este mundo não pode ter piorado tanto em duas semanas e de facto não piorou, mas quando estamos fora dele e regressamos conseguimos ter uma melhor percepção do caminho que estamos a fazer e de como isso não faz sentido.

Estamos todos fartos de estar fechados em casa, de não festejar aniversários, de não estar com amigos e familiares, de não assistir a concertos, de não ver uma peça de teatro. Estamos todos fartos de imagens de frasquinhos a passear em tapetes rolantes enquanto a voz off de serviço fala pela enésima vez do mesmo assunto e no mesmo tom.

Estamos mesmo fartos de não podermos ser humanos em todas as dimensões, mas isso não é nem pode vir a ser motivo para que se alimentem feras que nos irão devorar, como a leitura da história não se cansa de nos ensinar.

Até para a semana

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