O mundo (sombrio, mas legal) da caça – Parte I

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 09 Fevereiro 2023
O mundo (sombrio, mas legal) da caça – Parte I
  • Alexandra Moreira

Há cerca de um ano, andava eu em campanha eleitoral para as legislativas, como cabeça de lista do PAN por Évora, calcorreando o belíssimo Centro Histórico desta cidade.
A certa altura, a minha comitiva, identificada com as bandeiras do partido, foi convidada a ir ao encontro de um grupo que almoçava num restaurante ali próximo.
Podem imaginar a nossa surpresa quando os convivas, na sua maioria de idade avançada, se nos apresentaram como “caçadores”, mas acrescentando logo a seguir que “o nosso partido tinha toda a razão em querer restringir a caça” e que “toda a caça devia ser suspensa pelo menos durante dois anos”, porque “já não há animais” – assim disseram.
Seguiu-se uma profícua conversa, durante a qual nos foram revelados casos de indivíduos sem quaisquer escrúpulos ou respeito pela Natureza, com o mero objetivo de matar por matar; recordo, nomeadamente, uma jornada de caça em que foram mortos coelhos bravos e lebres, às largas dezenas, para, de seguida, serem simplesmente enterrados.
O tenebroso caso do massacre de centenas de veados e de javalis na Herdade da Torre Bela, chocou o país, porque a maioria das pessoas desconhece que situações atrozes como essa são comuns. Como também é frequente ignorar-se que espécies como a raposa ou o sacarrabos ou, ainda, os veados e os gamos, são considerados animais a abater, que a lei eufemisticamente designa por “espécies cinegéticas”.
As batidas à raposa ou as montarias ao javali, em que é permitida a utilização de um número ilimitado de cães treinados para atacar e despedaçar à dentada, os quais, por sua vez, também sofrem lesões, são autênticos filmes de terror. Matar pelo gosto de matar através de métodos cruentos é a motivação de muitos, condizente com o macabro ritual de baptismo do caçador, que é literalmente coberto com as vísceras dos animais.
Os obscuros meandros do mundo da caça têm subsistido longe dos olhares públicos e sob o beneplácito de um regime legal com cerca de duas décadas de vigência, largamente inspirado nas práticas medievais mais remotas.
Por sua vez, o lobby da caça tem amplo assento nos poderes políticos constituídos, apesar de o número de caçadores continuar a registar forte declínio entre nós, sendo a faixa etária dominante de encartados a dos 61 aos 70 anos.

Na altura do escândalo da Herdade da Torre Bela, e já lá vão mais de dois anos, o Ministro do Ambiente, mostrando-se chocado, anunciou a revisão urgente da lei da caça; contudo, o que aconteceu de novo foi a entrega de mais uns milhões de euros de todos nós ao setor da caça.
Por sua vez, PS, PSD, PCP, CH, IL e CDS-PP, têm sistematicamente obstado na Assembleia da República à necessária atualização do regime legal da caça, quer por restrição dos processos permitidos, quer das espécies abrangidas.
Nas próximas semanas, prosseguiremos esta visita ao mundo da caça e ao seu agasalho legal

Até para a semana.

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