O mundo (sombrio, mas legal) da caça – Parte II

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 16 Fevereiro 2023
O mundo (sombrio, mas legal) da caça – Parte II
  • Alexandra Moreira

 

Tenho um amigo que regularmente divulga na sua página do facebook filmagens que ele próprio produz através de uma câmara escondida na Natureza, acompanhando as peripécias da vida secreta de um casal de raposas. A “Foxy” e o “Raposão”, assim os conhecemos, não fazem ideia de que já têm uma legião de seguidores humanos, maravilhados com a densidade de comportamentos que exibem, onde não faltam gestos de solidariedade como a partilha de alimento entre si. Também não imaginam que no mundo humano, no território que habitam, são considerados “espécie cinegética”, a abater para mero entretenimento de alguns.
A raposa e o lobo-ibérico são os únicos canídeos selvagens que existem no território nacional. Mas enquanto a caça ao lobo ibérico é proibida, por estar em perigo de extinção, a caça à raposa é largamente permitida. Os iluminados decisores destas coisas, entendem que o estatuto de conservação das raposas é “pouco preocupante”, portanto não merecem ser poupadas. Isso, embora neste país não se realizem sequer censos às espécies que tentam sobreviver em estado selvagem.
Mas não se pense que o estatuto “preocupante” é salvo-conduto para a exclusão da lista de “espécies a caçar”. Em Portugal, não é. O coelho bravo, por exemplo, está atualmente em perigo de extinção e só na última época venatória foram mortos mais de 72 mil; e, na época anterior a essa, foram mortos mais de 112 mil. Tudo na maior das legalidades, claro. Percebe-se que esteja em extinção.
Em Portugal todos os anos são abatidas legalmente cerca de dez mil raposas – apenas pelo mero prazer de caçar e de exibir os cadáveres como troféus pendurados em árvores, cercas ou nas carrinhas dos caçadores, numa expressão cultural que não é aceitável nos nossos dias.
Carece de sentido ético que animais como a raposa e os sacarrabos sejam considerados “espécies cinegéticas”; trata-se de mamíferos de pequeno porte, inofensivos para os humanos, que não são utilizados na alimentação humana nem suscitam problemas de saúde ou de segurança pública.
Têm, ao invés, importante atuação no equilíbrio natural de populações de espécies sinantrópicas, tais como ratos e cobras, e, bem assim, contribuem para a eliminação de resíduos depositados na natureza, como sejam cadáveres de animais, de que se alimentam.
Acresce que têm como predadores naturais algumas das subespécies mais ameaçadas da Europa e do mundo, como a águia-imperial-ibérica, o lince e o lobo ibéricos. A escassez de alimento, grande parte do qual alvo da caça, contribuiu, como é sabido, para esse alarmante estatuto.

Mas mais. A lei permite não só que a raposa seja caçada, mas também que possa recorrer-se a processos particularmente cruentos como o designado “a corricão”, em que podem ser utilizados até 50 cães e um pau. Não é difícil imaginar o cenário atroz daí decorrente.
A lei define a “caça” como a “forma de exploração racional dos recursos cinegéticos”. Pergunto eu que racionalidade há em matar por matar e por processos de extrema violência…
Tentando acrescentar alguma racionalidade ao regime legal da caça em vigor, o PAN apresentou no dia 9 deste mês um projeto de lei que visa a abolição da caça à raposa e ao sacarrabos e dos processos de caça “à paulada” e “a corricão”.
Em breve, quando for a debate e votação, veremos quem são os fundamentalistas da violência injustificada com assento na Assembleia da República.
Voltaremos a este assunto na próxima semana.

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