O novo parlamento

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 11 Outubro 2019
O novo parlamento
  • Rui Mendes

 

 

Retomamos hoje o ciclo semanal de crónicas, as quais tiveram uma interrupção prolongada devido às eleições legislativas.

Ora, o tema desta crónica será precisamente sobre as eleições legislativas.

Estavam inscritos para este acto eleitoral 10 811 milhões eleitores. Contudo, ainda não se conhecem os resultados dos consulados, que irão eleger 4 deputados, 2 pelo circulo da Europa e 2 pelo fora da Europa.

Dos eleitores dos restantes 20 círculos eleitorais 45,46% abstiveram-se. Uma percentagem de eleitorado que cresce de eleição para eleição e que mostra bem o descrédito que a política tem para muitos. As teias que se têm criado e os níveis de corrupção certamente contribuíram para o afastamento de muitos da política, e para a sua não contribuição em actos eleitorais.

Até porque a este acto eleitoral concorriam 21 forças políticas, pelo que não seria pela falta de escolha que o eleitor não votaria.

E, ainda assim, 129 610 eleitores (2,54%) votaram em branco. Aqueles eleitores entenderam votar, mas acharam que nenhuma das forças politica lhes merecia o seu voto.

Foram vencedores:

O PS, contudo com um resultado aquém do que esperava. Falhou no objectivo de atingir a maioria absoluta. Ainda assim um crescimento em votos e em 20 deputados;

O PAN, que passa de 1 para 4 deputados;

O Chega, o Iniciativa Liberal e o Livre que conseguem entrar no parlamento. Estes partidos, a partir de agora, ganham um espaço de muito maior visibilidade.

Foram vencidos:

O mais perdedor foi o CDS, perde 13 deputados e perde a sua líder.

Nada que já não lhe tenha acontecido. Em 1987 elegeu 4 deputados, em 1991 elegeu 5. O aparecimento de novos partidos na área do centro direita e o efeito do voto útil no PSD terão gerado uma fuga de votos e, como consequência, a enorme redução dos eleitos pelo CDS;

O PSD que perde 11 deputados e tem um dos seus piores resultados em legislativas. Mais, perde toda a sua representação na nossa região ao não eleger deputados pelos círculos eleitorais de Beja, Évora e Portalegre;

A CDU (PEV incluído) também teve pesada derrota. Perdeu 5 deputados.

Aliás, a CDU tem acumulado sucessivas derrotas nas últimas eleições.

Talvez por isso se queira afastar do apoio tão directo que tem dado à governação socialista.

Perdedores foram também todos os partidos que não conseguiram eleger um único deputado.

O espaço político do centro-direita foi o principal perdedor destas eleições. Resultado de uma oposição que ora esteve ausente, ora esteve hesitante, e só tarde conseguiu algum acerto.

O centro-direita terá que fazer uma profunda reflexão das razões do afastamento dos eleitorados, e iniciar a sua reorganização, essencial para ter a força necessária para ser alternativa política.

Para o PS o resultado obtido dará todas as condições para a governação.

O centro-direita perdeu força parlamentar, ao ponto de não ter condições para inviabilizar as iniciativas socialistas.

À esquerda bastará a abstenção para viabilizar as iniciativas socialistas.

O novo parlamento terá uma constituição mais diversa, nele estarão representados 10 partidos (PS, PSD, BE, PCP, CDS, PAN, PEV, Chega, Iniciativa Liberal e Livre).

Foi esta a escolha dos portugueses.

Mas não deixa de haver um efeito de avestruz na nossa sociedade.

Não importa que Portugal tenha uma das maiores dívidas do mundo e que esteja em permanente crescimento. Que o crescimento económico seja anémico. Que nos afastamos da média de rendimentos da UE. Que as exportações estejam em queda. Que o país funcione pior.

O que importa é que nos digam que está tudo bem, ainda que possamos não acreditar, porque sabemos que não está.

O que importa é que o país esteja em festa. Quanto ao resto a seu tempo se verá.

 

Até para a semana

 

Rui Mendes