O ódio aos professores

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 07 Junho 2018
O ódio aos professores
  • Eduardo Luciano

 

 

Este é um tema que aparece ciclicamente nas “discussões de café”. Basta que exista a mera hipótese dos professores terem a possibilidade de recuperarem algum dos direitos que adquiriram ao longo de anos de luta, para um coro imenso de gente, que sabe ler e escrever apenas porque existem professores, se ponha a vomitar opiniões sobre essa classe profissional que se entretém a garantir que os filhos têm acesso ao conhecimento.

A questão que se discute agora é se a contagem do tempo de serviço deve ser contabilizada na totalidade para a progressão na carreira ou se por qualquer golpe de magia o governo fica com a possibilidade de fazer eclipsar um alargado período de tempo, desde o congelamento das carreiras até aos dias de hoje.

Durante vários dias ouviram-se e leram-se barbaridades sobre o assunto, como afirmações de que se tratavam de aumentos salariais com retroactivos, ou de que seria uma benesse para uma classe profissional já de si privilegiada.

A partir desta base falaciosa, discute-se tudo e afirma-se tudo, com recurso aos mais básicos argumentos, desde o invocar de exemplos de maus profissionais até ao ajuste de constas com aquele professor que “embirrou com o meu filho”.

Esta sanha contra os professores só pode ser reveladora do profundo desprezo que alguns têm pela função de transmitir conhecimentos como se isso não fosse essencial para que nos diferenciemos dos outros animais.

Os mesmos que acham que os professores não devem ter as carreiras descongeladas desde que foram congeladas, acham perfeitamente normal que se enterre milhares de milhões de euros em bancos e que vão a correr ler a notícia (com orgulho) de que um treinador de futebol vai ganhar sete milhões de euros num ano.

Claro que o sistema de ensino não é o que desejamos (se é que alguns dos inimigos dos professores se questionam sobre isso). Claro que existem bons e maus profissionais. Claro que a escola deveria ser um sítio de formação de seres humanos integrais e não a formatação de mão-de-obra para o mercado. Claro que não devia existir a escola a tempo inteiro para permitir às crianças a possibilidade de o serem. Claro que os pais deveriam ter horários de trabalho que fossem compatíveis com a sua permanência na vida dos filhos. Mas estas serão razões para os menos culpados de tudo isto não serem tratados com a dignidade que merecem?

Imaginem que vos diziam que havia meia dúzia de anos da vossa vida profissional que não contavam para nada, que não tinham sido a sério, que eram para apagar, com o argumento de que seria o contributo para “combater o período difícil que o país viveu”?

Já vos disseram, não foi? E que fizeram? Encolheram os ombros? Aceitaram como bons os argumentos de que os sacrifícios foram para todos, sabendo que nunca as desigualdades sociais foram tão profundas como nesse tempo?

Claro que sim. É por isso que não perdoam aos que lutam e exigem a reposição do direito a que o tempo trabalhado conte para a progressão da carreira. Não exigem aumentos. Exigem que um intervalo da sua vida profissional não seja apagado.

Custa dinheiro? Claro que custa. Mas custa muito menos que os juros usurários pagos pela dívida, muita dela privada tornada pública.

Como diz a minha prima Zulmira, o respeito pelos professores é uma questão essencial para a saúde. Sempre que vai ao médico, que com a saúde não se brinca, lembra-se que se não fosse a existência de professores o homem não conseguia ler as análises nem escrever a receita.

Até para a semana