O olhómetro como recurso estatístico

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 12 Janeiro 2022
O olhómetro como recurso estatístico
  • Alberto Magalhães

No princípio do ano, o Dr. António Sales, secretário de Estado da Saúde, anunciou que 90% dos internados em UCI não estavam vacinados. Mas, logo no dia seguinte, confessava que o que teria querido dizer era haver um número muito elevado de não-vacinados em cuidados intensivos. Ou seja, os 90% não passavam de um palpite e, também, de um exagero, fruto da vontade de convencer os refractários a vacinar-se.

Esta vontade de torcer os números para que falem em defesa das nossas convicções é humana, demasiado humana, e torna necessário que se tomem todas as cautelas para a conter e corrigir. Trata-se, muito simplesmente de colher os necessários dados para chegar a números que, em vez de brotarem de jorro da cabeça de um qualquer secretário de Estado, tenham raízes na realidade factual.

No caso concreto, as autoridades sanitárias tiveram cerca de um ano para encontrar maneira de cruzar os dados da vacinação com o conjunto dos utentes internados em UCI, através dos seus números de utente. Os sistemas informáticos da DGS e dos hospitais não estão sincronizados? De que estão à espera para os compatibilizar? É desleixo, incompetência técnica ou de gestão? Ou será política? Uma visita ao sítio da DGS, em especial ao cantinho dedicado aos investigadores, dá-nos uma ideia do estado da arte. Os candidatos a aceder aos dados têm de provar que são professores universitários ou investigadores encartados e facultarem uma descrição pormenorizada do seu projecto, se quiserem ter acesso aos dados que, de indigentes que são, talvez não mereçam o esforço. Em resumo, por motivos insondáveis, não se recolhem nem tratam dados? Vai de olhómetro.

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