O outro lado da maioria

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 30 Dezembro 2022
O outro lado da maioria
  • Rui Mendes

 

A TAP não deixa de nos surpreender. Sempre que vem para as páginas dos jornais é por razões deploráveis.

Recorde-se que a TAP tem sobrevivido porque tem sido socorrida pelo erário público, pelo que os contribuintes estão saturados de ser chamados para pagar os custos da transportadora aérea.

Acontece que este último caso é especialmente grave.

Grave porque a TAP rescinde com uma vogal da Comissão Executiva, com efeitos a 28 de fevereiro, e dispõe-se a pagar-lhe uma indemnização de meio milhão de euros. Uma empresa de capitais públicos, sujeita a intervenção financeira pública de mais de 3 mil milhões de euros, que no passado recente dispensou centenas de trabalhadores e procedeu a cortes salariais, paga uma indemnização de um valor colossal para a dispensar uma vogal, decisão suportada por dinheiros públicos, porque a TAP, por decisão de António Costa, é uma empresa pública. O que mostra uma total insensibilidade social, que atinge particularmente o Governo, porque é este que tutela a companhia aérea.

Grave porque alguém que é dispensado por uma empresa pública em março, sendo indemnizado por isso, seguidamente, em junho, é nomeada para outro cargo de natureza público, por sinal presidente da Navegação Aérea de Portugal (NAV), não sendo totalmente claro as razões desta “passagem”, cargo em que esteve apenas poucos meses, porque em 2 de dezembro era nomeada para secretária de Estado do Tesouro, cargo em que esteve apenas dias.

Não estarão em causa questões de natureza jurídica.

Estarão em causa razões de natureza política e social, pelo que este caso choca, incomoda, irrita, indigna.

Por isso era mais que evidente que haveria consequências. Até agora fez cair três membros do Governo: a secretária de Estado do Tesouro, o secretário de Estado das Infraestruturas e o ministro das Infraestruturas e da Habitação e deixou o Governo ainda mais frágil. Um Governo que apesar de estar sustentado por uma maioria parlamentar não consegue imprimir estabilidade governativa, porque os casos vão-se sucedendo uns atrás dos outros. António Costa lidera um Governo de maioria, mas que não tem qualquer iniciativa, que não consegue imprimir reformas e que, ainda por cima, é fraco e em evidente desgaste.

Mas este caso não está encerrado porque os portugueses exigem explicações, estão fartos de assistir a um discurso que se foca em distrações, em lateralizar problemas, e em que pouco se resolve. Pelo que as consequências deste caso não terão terminado.

E é neste contexto de instabilidade que iremos entrar no ano de 2023.

 

Até para a semana

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