O país da coesão

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 25 Junho 2021
O país da coesão
  • Rui Mendes

 

 

Com o tempo fomo-nos habituando a acreditar mais no que testemunhamos do que nos pretendem transmitir.

Muito do que os vários responsáveis políticos nos dizem é aquilo que provavelmente gostariam que acontecesse, mas tantas e tantas vezes longe da realidade.

Vem isto a propósito das recentes declarações da Comissária Europeia para a Coesão e Reformas, Elisa Ferreira, que referiu esta semana em entrevista à Antena 1 que gostaria que no final do período de 2021/2027 Portugal deixasse de ser um país da Coesão “porque é penoso ver que com tantos anos de apoio, ainda estamos entre os países atrasados”.

Este “desejo” da comissária portuguesa será certamente a aspiração de todos os responsáveis políticos e certamente, também, de todos os portugueses.

Acontece que Portugal, pese embora a saída do Reino Unido da UE, ainda continua a integrar o grupo de países que apresentam um nível de vida de 20 a 30% abaixo da média europeia.

A verdade é que Portugal converge nos primeiros anos após a adesão, passando posteriormente a divergir em relação à média dos restantes países da união.

A enorme dispersão dos fundos por projetos e projetinhos, alguns com fraquíssimo retorno económico e/ou social, terão contribuído para que nos mantenhamos na situação de “país da Coesão”.

Este foi o modelo que se pretendeu aplicar aos fundos, talvez para que atingissem um vasto grupo de beneficiários, agradando a muitos, “auxiliando” a economia de uma forma transversal. Pulverizaram-se os fundos o que terá retirado o efeito de força que os fundos deveriam imprimir na economia.

Os resultados são visíveis. A posição que Portugal continua a ocupar deve-nos fazer refletir e repensar a estratégia que tem sido seguida na aplicação dos fundos.

O país cresce sustentado nos fundos europeus e no crescimento da dívida pública. Uma combinação que não poderá resistir por muitos mais anos.

A nossa dívida pública continua o seu trajeto de crescimento, representava em março 137,1% do PIB. O endividamento das famílias, que em 1995 representava 35% do seu rendimento disponível, hoje supera os 100%.

Enfim, indicadores que deveriam preocupar, mas que pouco deles se fala para não preocupar o povo. Assim, vai parecendo que tudo está bem.

Pese embora os progressos sentidos com a adesão, que foram muitos, Portugal continua a ser um país de baixos salários, de fraca produtividade e de atração de trabalhadores pouco qualificados.

Ao invés permite que a sua mão-de-obra mais jovem e bastante qualificada seja atraída para outros países europeus, onde existe maior reconhecimento e salários mais altos.

O baixo crescimento econômico do país não tem permitido uma aproximação aos países da frente da UE.

Falta-nos ambição para melhorar, sucessivamente melhorar, de fazer crescer muito mais a economia, de sermos mais capazes, mais eficientes, de sermos mais produtivos, de criarmos um país mais competitivo.

Não será de estranhar que Portugal quando entrou para a CEE integrava o grupo dos países pobres, e agora na UE integra o grupo dos países pobres.

Por isso continuamos sendo um país da Coesão.

 

Até para a semana

 

Rui Mendes

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