O péssimo romance das ilhas encantadas

Crónica de Opinião
Terça-feira, 17 Novembro 2020
O péssimo romance das ilhas encantadas
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Jaime Cortesão, médico, político, escritor, historiador, que viveu entre 1884 e 1960, dedicou a jovens leitores um livrinho com lindíssimas ilustrações de Roque Gameiro, sobre as ilhas portuguesas, com especial relevo para os Açores. Nesse “O Romance das Ilhas Encantadas”, a história recua até quando, “Em tempos que já lá vão um bispo nigromante encantou as ilhas do grande mar Oceano”. O enredo dá muitas voltas, a maior parte delas até já conhecidas noutras versões de modelo semelhante e com final, por isso, previsível.
O bispo nigromante, ou seja conhecedor de artes que iludem os comuns mortais, queria tanto preservar como lugar paradisíaco aquelas sete ilhas açorianas, que as tornou invisíveis a todos os marinheiros e exploradores, até que uns especiais seres, netos do Oceano, as conseguissem devolver ao resto da Humanidade. E o que acontecia nos Açores, não mais ficaria só nos Açores.
Rui Rio resolveu fazer o tempo andar para trás. Ou melhor, tentou fazer o tempo andar para trás. Julgando-se com artes para fazer da amizade florida do seu Partido com o Chega um assunto invisível para o resto do País, arriscou-se a abrir o caminho para que os ventos do fascismo regressem, em amena brisa que disfarça nela um perigoso e maligno nevoeiro.
Os que, como uma parte significativa do Partido de Rio, mais do que movidos pelo interesse nacional e civilizacional, se movem para combater o Partido rival que pertence ao ainda resistente arco da governação, apontam a precedência da Geringonça. Por muito sonante que seja a lengalenga, por mais fragilidades que, de facto, a Geringonça possa ter trazido a um modelo de governação pouco habituado a estas composições de geometria variável, o impacto aberto pelo caso açoriano a nível nacional não é idêntico.
Retomo a conhecida anedota da formiga e do elefante que, relatando que caminhavam juntos, leva a formiga a olhar para trás e a exclamar: “- Olha a poeira que nós fazemos!”. Ao contrário do que aconteceu com a Geringonça em que foram as formigas que ficaram a perder ao chegarem-se ao elefante, fugazmente, com mossas internas que têm tido dificuldade em desamolgar; nesta traquitana, foi o elefante quem ficou ferido, esperemos sinceramente que não de forma irremediável, pela formiga rabiga. Nas ilhas encantadas está a acontecer um péssimo romance. Que seja de edição limitada, rapidamente esgotada.
Até para a semana.
Cláudia Sousa Pereira

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