O Pinto-Esperto

Crónica de Opinião
Terça-feira, 12 Março 2019
O Pinto-Esperto
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

O rapaz tem um ar vivaço e aparece nas televisões lusas em cenário búlgaro com discurso fluido e com tom de que tudo quanto diz é óbvio para qualquer comum mortal. Não óbvio porque “poucochinho” e fácil de entender, mas porque, cheio dele mesmo, a mensagem que sai da sua boca oracular atinge os píncaros do bom-senso e só pode estar prenhe de razão.

Pela profissão que tenho, lido quotidianamente, e ano após ano, sobretudo com jovens. Tento fazer com que mantenham a vivacidade própria da idade e consigam encontrar o equilíbrio saudável, para eles e para os que com eles convivem, entre uma certa displicência que não os torne ansiosos e uma ansiedade que não os deixe passar ao lado do que pode ser-lhes importante. Por esta altura já terão percebido que falo do hacker do footballeaks que está em risco de ser extraditado para Portugal, se é que à hora a que me ouvem ou lêem não está já por cá.

Diz que se sente ligeiramente em perigo, agora que saiu da “nuvem” onde andou a espreitar pelo buraco da fechadura de portas que, para o bem ou para o mal, têm direito a estar fechadas. Se o rapaz de sotaque e divertida aparência (confesso a sincera graça que lhe acho ao look ) “Porto-Espinho” tivesse ouvido contar (e se calhar ouviu) o que acontecia às personagens que nas histórias tradicionais ouviam atrás da porta e espreitavam pelos buracos da fechadura, tinha razões para ter medo. Não porque lhe possam alguns “limpar o cebo” transformando-o, esse perigo iminente, naquele herói de filmes e jogos que deve frequentar nas horas em que não está a piratear e a violar a privacidade de gente a sério, seja gente mais ou menos séria. Mas porque essas etapas do herói bisbilhoteiro tantas vezes atrasavam o desenrolar da história e a chegada do final feliz.

É que este justiceiro do primeiro quartel do século XXI, que talvez já tenha quase nascido ligado à .net, representa o mau uso da acessibilidade ao mundo interconectado desejável para todos como sinónimo de progresso. E que a par da facilidade em aceder a mais informação, a obter agilmente soluções para problemas ou processos que nos roubam tempo de qualidade à vida, a par de tudo isto e mais algumas coisas, se mantenha o direito à privacidade. E dando-lhe o valor que não a transforme, por se lhe querer atribuir uma imagem banalizada de bas-fond. Aprenda jovem que o segredo tem muitas vezes boas razões para existir, e que atrás de uma porta não existem só malfeitores a conspirar. Se este princípio se acabar e se se banalizar a devassa sob a capa de uma justiça por acontecer, “descanse”, jovem, que quem “vier por mal” rapidamente encontrará alternativa para continuar. E pelo caminho muita vida íntima, integra, terá sido interrompida.

Até para a semana.

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