O povo é quem mais ordena

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 21 Outubro 2019
O povo é quem mais ordena
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Para falar do que se passa na Catalunha podia começar hoje esta crónica por lembrar o artº 1º da Carta da Nações Unidas e o reconhecimento do direito à autodeterminação dos povos.

Mas prefiro as palavras de Zeca Afonso que foram a senha para a revolução de Abril e que são mais inspiradoras:

O povo é quem mais ordena!

É esta a questão fundamental que se põe na Catalunha e que os Governos da Espanha se têm sistematicamente recusado a aceitar, tornando as ruas de Barcelona e de outras cidades catalãs verdadeiros campos de batalha.

A Constituição espanhola reconhece a Catalunha como uma nação, mas os sucessivos governos não querem reconhecer o direito de o povo catalão se pronunciar sobre o seu futuro colectivo.

Depois da realização há 2 anos de um referendo que decorreu sob forte e violenta intervenção policial e que fez quase mil feridos, o Estado Espanhol promoveu a prisão dos líderes independentistas catalães eleitos democraticamente para o parlamento e rejeitou, desde então, qualquer via para o diálogo.

Abriu com esta actuação um período de confronto sistemático com os catalães, com perseguição de activistas, prisões e cargas policiais sobre as manifestações, numa evidente deriva autoritária, que levou o Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenções Arbitrárias a concluir, em Maio deste ano, que a Espanha estava a violar o direito internacional e devia libertar e compensar os líderes catalães presos.

Há dias a condenação pelo Supremo Tribunal dos 9 ex-governantes e activistas catalães a pesadas penas de prisão até 13 anos, veio reacender a indignação e trazer para as ruas mais de meio milhão de catalães exigindo a libertação dos presos políticos e a autodeterminação.

Às manifestações pacíficas que desde então se sucedem, têm-se seguido noites de confrontos entre grupos de jovens e a polícia, que fizeram já centenas de feridos e muitas detenções. A contestação, com feridos e detenções, chegou já também a Madrid.

O Governo Espanhol persiste numa via de repressão e judicialização, aprofundando assim o conflito, em vez de abrir canais para o diálogo, para uma negociação política, reconhecendo o direito dos catalães a decidir como querem que seja o seu futuro, única via que pode garantir uma saída democrática para a situação actual.

Uma coisa é certa, a continuar a rejeitar o diálogo,\ esta não é uma luta que no final o Estado Espanhol ganhe. A repressão pode aumentar, a autodeterminação pode levar anos a ser conquistada, mas uma coisa é certa e a história tem-no-lo demonstrado, ninguém trava um povo determinado a tomar as rédeas do seu destino colectivo.

Até para a semana!

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