O que diz que disse?

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 06 Janeiro 2022
O que diz que disse?
  • Alberto Magalhães

 

 

É impressionante ouvir os “especialistas Infarmed”, numa reunião Infarmed, apelarem ao incremento da clareza na comunicação pandémica, falando no dialecto ‘especialês’ que só os colegas talvez entendam. Ainda mais impressionante, os esforços dos mesmos especialistas, que se têm especializado em lançar o pânico nas hostes portuguesas (e agora que a realidade se impôs e o número de infectados sem sintomas ou ligeiramente sintomáticos passou a ser incontrolável), para tentar enquadrar na sua narrativa aquilo que negavam ainda há dias: que, mais que o número de infectados, é o número de doentes graves e de mortos que deve guiar as autoridades.

Inventaram agora, à pressa, a auto-monitorização cidadã, um novo pilar, como eles dizem, da guerra pandémica. Como se fossemos todos parvos e ninguém percebesse que a avalancha de casos veio destapar, em toda a sua crueza, a debilidade da rede de rastreios, apesar do esforço sobre-humano que era exigido aos médicos e enfermeiros dos Cuidados Primários, e a idiotia da manutenção dos prazos de isolamento e de quarentena, quando a Ómicron, demonstrando impecavelmente o conceito darwiniano de ‘sobrevivência do mais apto’, já quase exterminara a variante Delta, fazendo evoluir a espécie.

Mas o cúmulo do disparate, ontem, foi a notícia de que o Governo queria perguntar à PGR se era legal interromper os isolamentos no dia das eleições, como se estes não fossem uma norma do Governo, só dependente do Governo; igualmente disparatada a disponibilidade dos grupos parlamentares para adaptar as leis a essa possibilidade, agora que a AR está dissolvida e não pode mexer nas leis que regem as eleições.

Por uma vez, é de louvar Ferro Rodrigues que, diz o Observador, à porta fechada, zurziu no Governo por não comunicar com clareza e não ter já soluções para o voto das centenas de milhares de cidadãos em isolamento.

Dado que nada foi prevenido em devido tempo (pois se ninguém estava à espera destas eleições, qual era a pressa?), só parece haver uma solução: cumprir a Constituição da República e, dentro da lei, dar a todos os que estejam isolados no dia 30 o direito a votar, com máscara e distanciamento, arejamento e caneta própria, amor e respeito pela democracia.

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