O ranking, a meritocracia e uma verdade de La Palisse

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 21 Fevereiro 2019
O ranking, a meritocracia e uma verdade de La Palisse
  • Eduardo Luciano

 

 

No passado fim-de-semana comprei um jornal. O dito cujo tinha mais páginas que o habitual e trazia um caderno inteiro com quadros preenchidos com números, alinhados ao lado de nomes de escolas distribuídas pela velha noção de distrito.

Pretendia-se com esse levantamento numérico exaustivo dizer quais os melhores e os piores estabelecimentos de ensino para a obtenção do sucesso, essa miragem que cada vez mais se transforma em objectivo único, a pingar num funil onde as diferenças de cada um são torturadas até se obter um ser humano com uma única forma de pensar.

Medir mérito sem ter em conta o contexto individual, como se todos partíssemos para a maratona da vida do mesma linha, com o mesmo tempo de treino, com características idênticas, com o mesmo equipamento e disponibilidade de investimento, é o mesmo que comparar batatas com cebolas ou alhos com pimentos ou, melhor ainda, jogar um jogo de regras únicas independentemente das características de cada jogador.

Esta meritocracia que nos pretendem vender como o cúmulo da justiça (vão mas longe os que conseguem melhores resultados) é uma das principais ferramentas da desigualdade que resulta depois na produção e venda, sim venda, de discursos de apelo à inclusão.

A meritocracia produz excluídos que justificam a produção de programas e projectos de combate à exclusão que são o ganha-pão de muita gente. Obviamente os do topo dos diversos rankings que, não sendo excluídos nem habitando nas margens da exclusão, sabem tudo sobre como contrariar a exclusão.

Será que não percebem que há mais esforço e mérito num “dez” de alguém que sobrevive abaixo do limiar da pobreza do que num “vinte” de um privilegiado? Claro que sabem. Mas também sabem quem paga e aquela lista imensa que classifica escolas como se fossem melões produzidos no mesmo meloal tem os seus objectivos bem claros: a alimentação do negócio de produção do famigerado sucesso.

Claro que não estou a dizer nada de novo e lá virão alguns dizer que conhecem o Manel que passava fome e não tinha um livro em casa e ainda assim entrou em medicina, ou a Maria que apesar de ter crescido num bairro onde imperava a violência e o tráfico de droga se transformou num génio da astrofísica.

Confirmo que as excepções existem e precisam de ser absolutamente excepcionais para que lhes seja reconhecido o mérito, mas não é desses que estamos a falar. Aliás nem estamos a falar de alunos mas de resultados médios de escolas, sem ter em conta o contexto cultural, familiar e económico da população que as habita.

Conhecer os números é importante, mais importante ainda é conhecer a realidade que os produz e ainda mais importante é mudar de paradigma de sociedade, alterando radicalmente a distribuição do rendimento produzido, apostando na cultura, na produção e divulgação do conhecimento, valorizando o pensamento crítico e a curiosidade intelectual.

Classificar é apenas uma forma de estigmatizar e um meio de apontar uma única saída que designam de sucesso: formar mão-de-obra para a cadeia de exploração.

Enquanto a resposta à pergunta de uma criança sobre as razões de ter que ir à escola for, “para tirares um curso e teres um bom emprego” em vez da óbvia para “saberes mais”, os rankings continuam a ser a miragem dos pobres, o deleite dos ricos e o desânimo de professores que trabalham duramente para que pelo menos os seus meninos não desistam de o ser demasiado cedo.

Até para a semana