O regresso da censura

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 03 Março 2023
O regresso da censura
  • Alberto Magalhães

Começou nos livros e canções para crianças. Eliminar a crueldade, as desgraças, as incorrecções culturais passou a ser um desporto de certos editores. Atirar o pau ao gato passou a ser inconcebível. O príncipe acordar a Branca de Neve com um beijo tornou-se abuso sexual. A agressividade, mesmo que usada para matar gigantes ou bruxas más, deixou de ser admissível. As histórias tradicionais, que ajudavam as crianças a perceber o lado sombrio da natureza humana e a prepararem-se para o enfrentar, tornaram-se inconvenientes.

A praga está a progredir. Mudam-se textos de autores que já cá não estão para defender a sua obra. Tudo tem de seguir a cartilha da igualdade de género e nada pode ser ofensivo para qualquer minoria. Os personagens ‘gordos’ passam a ‘enormes’ para não ofender os leitores mais pesados e evita-se falar em rapazes e raparigas para não melindrar os que se sentem de género fluido.

Se aplicada à literatura infanto-juvenil, esta praga é completamente imprópria, impedindo os leitores de se confrontarem com outras épocas, outras realidades, outras atitudes quiçá mais imperfeitas, aplicada à literatura para adultos é simplesmente inqualificável. Não admitir livros de ficção com personagens racistas, misóginas, homofóbicas, violentas, ou o que seja, é simplificar a realidade complexa das pessoas e das sociedades e é voltar ao tempo em que as obras eram submetidas à comissão de censura, primeiro eclesiástica e, depois, estatal.

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