O salazarismo perpétuo

Terça-feira, 11 Janeiro 2022
O salazarismo perpétuo

Aviso prévio: esta Nota não é sobre a prisão perpétua, tema com que eu não gastaria duas linhas na actual situação do país. Esta Nota versa sobre um vício e uma fraqueza, próprios da pequenez dos lugares pequenos, como este jardim à beira-mar plantado, e que sempre me irritaram: o vício de usar a mentira como arma de arremesso contra adversários políticos e a dificuldade em assumir uma divergência com o ar do tempo, preferindo tapar os olhos e espremer a razão.

Indo directo ao assunto: irrita-me que, num país que viu nascer anti-fascistas como cogumelos a 26 de Abril; num país ainda hoje reverencial com um Estado que está longe de se portar como pessoa de bem; num país onde se aceita que o primeiro-ministro, a pretexto de uma pandemia, ponha em questão as liberdades constitucionalmente garantidas; se assuma alegremente que quem defende a prisão perpétua é, necessariamente, de extrema-direita.

Sejamos sérios, dos países do Conselho da Europa, não têm prevista a prisão perpétua: Portugal e a Noruega, acompanhados por Andorra, Montenegro, Bosnia-Herzegovina e Croácia, país onde a pena máxima pode, no entanto, chegar a 40 anos. Serão os restantes países europeus habitados por hordas fascistas sem pinta de humanismo, que usam e abusam da prisão perpétua a toda a hora e ao mínimo pretexto? Como pode haver tal unanimidade desde a direita de Pedro Mexia à esquerda de Ricardo Araújo Pereira? Excomungar Ventura por causa da perpétua é dar-lhe argumentos e força.

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