O sentimento de um ocidental

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 15 Abril 2021
O sentimento de um ocidental
  • Alberto Magalhães

 

 

Enjoo de Covid-19, enjoo de Operação Marquês. Lembra-me o Portugal enfermo de 1880, à espera do Ultimatum. No dia 10 de Junho desse ano, em plena comemoração do tricentenário da morte de Camões, é conhecida a obra prima de Cesário Verde, O Sentimento dum Ocidental, que começa assim:

Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

Despertam um desejo absurdo de sofrer

E diz assim, algumas estrofes mais à frente:

E evoco, então, as crónicas navais:

Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!

Luta Camões no Sul, salvando um livro, a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

Em 1963, Vasco Graça Moura, escreve um soneto intitulado, não por acaso, O Sentimento dum Ocidental:

nós que sofremos de mazelas crónicas

tão ocas como um Stradivarius

e da apatia febril das mnemónicas

circenses de requintes culinários

gostamos de basófias filarmónicas

de pompas fúnebres do ar dos funcionários

públicos e suportamos as mazelas crónicas

fazendo delas autênticos ovários

de onde irrompem embriões e fetos

discursos e chavelhos e essa melancolia

que os avós nos deixaram e vai para os nossos netos

Apendicites honras truques burocracia

um trato ameno um trote quase certo

e tretas vigaristas qualquer dia

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