O Síndrome Chega

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 27 Janeiro 2020
O Síndrome Chega
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Não costumo fazer apreciações sobre a vida interna dos partidos, porque a mim o que me interessa são essencialmente as políticas, mas acho que o que se passou no espaço de uma semana com três partidos que têm assento parlamentar e que escolheram de líder ou direcção, merece atenção, precisamente pelo impacto político que vai ter.

Do Livre e da sua deputada pouco rezará a história, mas da Direita devemos esperar de facto impactos.

Na Direita, assistimos tanto no PSD como no CDS a disputas internas de liderança, em que, sem nunca ser mencionada, a sombra da extrema direita e a disputa desse espaço político esteve sempre presente.

Primeiro foi o PSD, a escolher líder numa eleição directa pelos militantes. A decisão final balançou entre um Rui Rio mais ao centro e um Montenegro a puxar o PSD para o discurso mais populista de direita, procurando cativar o espaço de recrutamento de votantes que podem resvalar para a extrema direita. Nenhum dos dois excluiu a possibilidade de se vir a aliar com o Chega, desde que este se modere.

Ganhou Rio, mas os resultados obtidos por Montenegro deixam antever turbulências futuras e certamente pressionarão Rio para um realinhamento de posições. Realinhamento à direita, direi eu.

Finalmente, este fim de semana foi a vez do CDS.

Num congresso a que se apresentaram 5 candidatos, foi escolhido o jovem líder da Juventude Centrista Francisco Rodrigues dos Santos, conhecido como Chicão, com um resultado substancial de quase metade dos votos dos delegados.

O discurso com que se apresentou ao partido foi um discurso claro de quem quer radicalizar o partido à direita.

Dizia ele nas redes sociais e repetiu-o no discurso de vitória

“A nova direita em que acredito é popular….É afirmativa e não se envergonha de si. Marca agenda política, tem bandeiras, apresenta propostas e não pede autorização à esquerda para defender os seus valores.

Claro que não é a direita que convém à elite gourmet dos comentadores da esquerdinha da moda, pseudo intelectuais…”

O arrazoado dá o timbre.

Teremos agora seguramente um outro CDS. Um CDS que diz que é “A” direita, com um líder que diz que não quer ter mais nada à sua direita. Temos um CDS populista.

Francisco Rodrigues dos Santos é jovem de idade, mas partilha com a extrema direita e o Chega, por cá, as posições mais retrógradas relativamente ao casamento entre pessoas do mesmo género ou as mulheres.

O novo líder do CDS é contra o aborto, é contra o casamento “gay”, é contra a educação sexual…

Também ele dizia ser contra a “ideologia de género”, o que quer que isso signifique, mas que traduziu já na constituição da direcção do partido.

O CDS não tem nenhuma mulher como vice-presidente, como são homens o secretária geral ou e o coordenador autárquico. Nas suas listas para a comissão política nacional, dos 59 membros propostos apenas 6 eram mulheres.

Um mar de fatos e gravatas onde as mulheres aparecem relegadas para os lugares que a extrema direita normalmente lhes reserva: meros enfeites. Começa coerentemente o líder do CDS.

Nos próximos tempos veremos como é que a nova direcção do CDS e o grupo parlamentar, que representa o antigo CDS, conviverão e como vai o CDS posicionar-se no Parlamento.

Veremos pois se com este começo, apesar de mais polido, o novo líder não tornará o CDS num Chega 2.

Até para a semana

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com