O tempo do depois

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 10 Março 2023
O tempo do depois
  • Rui Mendes

 

 

Recuemos no tempo.

No final do ano passado, mais precisamente a 9 de outubro, o Governo assinava com os parceiros sociais, em sede Concertação Social, um Acordo de Médio Prazo de Melhoria de Rendimentos, dos Salários e da Competitividade, acordo este que tem como metas:

  1. Convergir com a média da União Europeia no peso das remunerações do PIB até 2026;
  2. Acelerar para 2% o crescimento da produtividade até 2026.

Quis assim o Governo firmar com os parceiros sociais um acordo no sentido de os obrigar a que os salários viessem a crescer, supostamente  a um ritmo superior à inflação: 5,1% em 2023, 4,8% em 2024, 4,7% em 2025 e 4,6% em 2026. Igualmente quis o Governo que a Remuneração Mínima Mensal Garantida (RMMG), vulgarmente designada por salário mínimo nacional, crescesse a um ritmo ainda superior.

Nada a apontar, os Parceiros Sociais, ou melhor, a maioria deles, subscreveram o Acordo para a melhoria de salários e aumento da produtividade e da competitividade no setor privado.

Mas este mesmo Governo que consegue acordar com os Parceiros Sociais permitindo estabelecer no tempo metas de valorização de salários e de aumento da produtividade é o mesmo Governo que não consegue acordar metas com aqueles que são os legítimos representantes dos trabalhadores da administração pública.

Provavelmente António Costa está a pagar a fatura de estar há 7 anos no poder, de ter criado expetativas que não consegue satisfazer. De ser totalmente incapaz de fazer a gestão das expetativas criadas.

Consequentemente, assistimos a níveis de contestação social que se alastram de dia para dia, em múltiplos setores. Esta semana foram bem sentidos os efeitos dessa contestação na justiça, na saúde, na educação e, também, com a paralisação dos maquinistas da CP e com a manifestação dos agricultores em Beja.

Excluindo um ou outro caso, não se poderá dizer que é uma contestação influenciada por uma ou outra força política. São contestações que movem as classes profissionais, com os que se posicionam à esquerda, ao centro, ou à direita. São todos.

Na saúde pede-se a salvação do SNS, na educação da Escola Pública. Mas para além disso estão também em causa legítimos direitos das pessoas. No caso da educação é evidente a desvalorização dos seus profissionais, a pouca importância que lhes é dada. Doutro modo nem sequer se punha como hipótese um professor dar aulas em diferentes agrupamentos de escolas (em diferentes concelhos) e, imagine-se, suportando os custos dessas deslocações, ou que não se contabilize tempo de exercício de funções como forma de penalização na carreira, ou com a criação de quotas que limite o acesso a 2 escalões na carreira, ou ainda não lhes ser dada a merecida estabilidade.

Acabará por ceder porque verdadeiramente este Governo tem uma caraterística. É fraco.

E se hoje existem serviços públicos com menor capacidade de resposta foi também porque este mesmo Governo lhes retirou essa capacidade, porque reduziu horários de trabalho, retirando-lhes assim “recursos” humanos, mas também materiais, não conseguindo sequer compensar essa perda.

Agora, tem faturas por pagar.

O país de que fala António Costa é um, mas os portugueses vivem num outro país. Vivem num país em que é cada vez mais difícil viver, num país em que o custo de vida não pára de aumentar, um país que não consegue entender as embrulhadas das decisões na TAP, ou na EFACEC, que se indigna todos os dias com o diminuir de respostas na saúde, na justiça e em vários outros setores.

Por isso a contestação é geral e crescente. E só não é mais sentida porque os portugueses são brandos pela sua natureza.

O país não está bem, mas o Governo também não.

 

Até para a semana

Rui Mendes

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