O trabalho invisível

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 25 Janeiro 2024
O trabalho invisível
  • Nuno do Ó

Quanto mais oiço aquelas vozes que dizem que isto está tudo mal, que os outros não fazem nada, mais me parece que são esses mesmos os que apenas se sentam no sofá para mandar umas bocas e nunca fazem nada, enquanto os outros, muitos deles, verdadeiramente trabalham. Uma espécie de juízes observadores daqueles que fazem ou que tentam fazer mais e melhor e que servem apenas para mandar palpites de como deveria ser, pouco adiantando para qualquer assunto, quando se trata de fazer, de facto.

São os mesmos que repetem que os políticos são todos iguais, sem que avancem com uma ideia para fazer melhor, enquanto vêm a bola no sofá, entre umas cervejas, a dizer mal do árbitro, sem que nunca tenham estado na pele de quem tenta vislumbrar as faltas dos que, desonestamente, os tentam enganar. Também se calha, dizem o mesmo dos professores ou dos médicos ou dos trabalhadores da Câmara, ou do que for, que são todos iguais, desde que não pertençam a essa classe de trabalhadores.

A verdade é que muita coisa se vai fazendo, sem que nessa altura, aquelas mesmas vozes, tenham a hombridade de o fazer notar, sublinhando o que se fez. Aí são mais esquecidos. São os trabalhadores da Câmara que todos os dias varrem o mesmo lixo que muitos de nós insistem em colocar fora dos contentores, ou os médicos, que nos acodem naquele dia em que a coisa correu mal e que até nos salvam a vida, ou os professores que tentam corrigir a educação que muitos dos alunos não vão tendo, porque em casa, preferem olhar para a televisão e afirmar que os outros, não fazem nada. É a conversa do se fosse eu é que era! Pena não serem!

Apesar disso, existe um trabalho invisível que todos os dias se repete, sem que ninguém se lembre de dizer, obrigado. Os que nos apanham o lixo todas as noites, que varrem as ruas, que constroem as estradas, as casas, os muitos trabalhadores que mantêm as cidades a funcionar e de que raramente nos lembramos, até dos políticos que honestamente tentam melhorar o mundo onde vivemos ou de todos aqueles profissionais que todos os dias, tudo dão para que a coisa, bem ou mal, aconteça, dos que trabalham no serviço público, sempre dando o melhor por ele, apesar de tudo, porque é para todos.

Ocorre-me esta dissertação, não porque me sinta particularmente contributivo para a causa, mas porque vou olhando para o lado e não deixo de observar o trabalho invisível que nos vai simplificando a vida e que devemos a muitos, a tantos trabalhadores invisíveis, que ainda para mais, na sua maioria, nem ganham para isso e que ainda assim, o fazem.

Vou percorrendo a nossa cidade e observo os enormes avanços que se têm feito, apesar das circunstâncias desgraçadas que nos colocam pela frente, apesar dos fracos recursos que atribuem à região, apesar dos 3 deputados que mais uma vez iremos eleger em Évora, apesar dos 8 deputados que são atribuídos ao Alentejo, em 230. 33% do território, com pouco mais de 3% de vozes no parlamento, ou ainda menos, se contarmos os que gostam mais de defender o seu governo do que a sua região. Apesar dos fracos recursos atribuídos na mesma proporção à região, decorrentes de políticas centralizadoras, desadequadas a que o país se desenvolva harmoniosamente, como um todo, ainda assim, vejo a cidade reerguer-se de uma falência, que ainda há pouco, pouca esperança nos deixava.

De não haver dinheiro para meter gasóleo nos camiões que recolhem o lixo à repavimentação da circular de Évora, vai uma grande distância, desde o tempo recente em que nenhuma estrada se poderia reparar até ao dia em que o fazemos, de facto, com orçamento integral do município, com os projetos feitos pelos técnicos e serviços da Câmara, em que muitos tiveram que trabalhar para que isto aconteça, finalmente, sem esquecer todos os que recuperaram financeiramente a Câmara e que conseguiram trazer a cidade para um novo momento, de verdadeira concretização. A todos eles, teremos que agradecer, porque apesar de tudo, fizeram, fizeram bem e fazem a diferença.

Da ruína quase total do Salão Central Eborense à sua recuperação, da quase total ausência de iniciativas culturais até à Évora Capital Europeia da Cultura, do quase nada até às Artes à Rua, do teatro vazio até a uma nova programação de espetáculos de referência, das fontes abandonadas até ao funcionamento luminoso de todas elas ou à iluminação lead da cidade, do pouco ou nada em que nos deixaram até ao Hospital Central, ao cluster aeronáutico, à renovação da Igreja de S. Francisco ou da fachada da Igreja de Santo Antão, à reabilitação do Palácio D. Manuel e à criação do Centro Interpretativo da cidade, à recuperação dos Paços do Concelho, até ao Plano Local de Habitação e a perspetiva da construção de mais de 200 novos fogos para a habitação, enfim, tudo isto, feito, feito por nós, apesar de tudo e contra muitos e muitas dificuldades, pelos nossos trabalhadores, pela força e vontade dos que aqui vivem, dos alentejanos ou dos que o já são e que insistem em não desistir, em refazer sempre e sempre que for preciso, apesar do que nos querem tirar, apesar de tudo, como sempre fizemos e refizemos.

Foi essa força trabalhadora que o fez, do operário ao arquiteto, do calceteiro ao engenheiro, todos eles. E é a essa a força, que insiste, que não desiste, que trabalha, que dedico esta crónica. Porque de facto, lhes agradeço, ao seu trabalho invisível e incansável, que devemos lembrar e agradecer, porque é a eles que a cidade deve agradecer, apesar do que falta fazer, apesar de tudo.

E apesar disto tudo, continua a haver os que esquecem. Eu cá por mim, não esqueço. Não esqueço, dos de agora e dos de antes, dos que trabalharam por nós, dos que lutaram por nós. Será agora a nossa vez de não esquecer, ignorando as vozes que escolhem não lembrar. Eu não me esqueço e obrigado!

Até para a semana.

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