O triste boicote à Cidade Educadora

Crónica de Opinião
Terça-feira, 25 Setembro 2018
O triste boicote à Cidade Educadora
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Évora voltou a ser falada na Comunicação Social pelas piores razões. A Cidade património da humanidade, o território livre de armas nucleares, a candidata a Capital Europeia da Cultura, a Cidade Educadora, na semana de reabertura das escolas às crianças em Portugal fechou tacticamente três escolas. Isto porque a Câmara Municipal permitiu que os seus trabalhadores com funções de auxiliares de educação não fossem para todas as escolas onde deveriam estar, sabendo nós todos que se o óptimo é inimigo do bom, o zero é o pior mesmo perante o insuficiente. E se durante as férias escolares, estes funcionários da Câmara provavelmente também servem para trabalhar noutros equipamentos e eventos municipais, em caso de crise o contrário também seria uma possibilidade.

Aquilo que sucedeu na primeira abertura de ano lectivo da responsabilidade da actual Vereadora do pelouro, face a uma situação que, não sendo nova, está longe de ser a pior dos últimos nove anos, tempo de vida do contrato de transferência de competências na área, exigia gestão. Como exigiu nos anteriores dois mandatos, de cores partidárias diferentes, mas em que o esforço de cooperação e diálogo, e que tempos foram de adversidades várias!, valeram inícios e anos lectivos relativamente tranquilos. E o rácio era outro, mais apertado, bem como maiores eram, quer o número de crianças nas escolas, quer, por exemplo, o número de escolas básicas abertas em freguesias rurais (se não me falham a memória e as fontes disponíveis ao público, em 2009 eram 10, em 2018 são 7). Afinal, nesta primeira prova de esforço, o que se viu por parte de quem tem a responsabilidade municipal no assunto foi uma espécie de “assim não vale, vamos desistir”.

Os que julgam que o que provocou o encerramento dessas escolas foi uma inevitabilidade, desenganem-se. Até porque, como todos já sabemos, para os Comunistas as inevitabilidades não existem e, como tal, escusam de combater com essa arma que repudiam os que se vêem, perante uma inevitabilidade, a necessidade de reorganização e adaptação de forma a prejudicar o menos possível a maior parte dos cidadãos. Este arranque de ano lectivo foi toda uma jogada de um plano maior que é a não aceitação liminar, e por isso sem negociações, da descentralização. Esta é uma importante fase da Democracia portuguesa – e se ela o é para os que defendem o poder Local! – que está em discussão de forma a vigorar a partir de 2021, ano em que serão as próximas eleições autárquicas.

E foi uma jogada que mexeu no que talvez seja, a par da saúde que todos temos e desejamos ter para sobreviver, o que mais influência tem no desenvolvimento de um País, uma região, um concelho: a educação. Tratou-se de um boicote para exigir um bónus acima da lei que tantas outras autarquias, até com iguais dificuldades, cumprem, pondo o seu empenho no bom funcionamento das suas escolas naquilo que delas isso dependa. O boicote é um tipo de actuação com uma história que data do século XIX, quando um gestor de terras que não eram suas resolve comportar-se como um tirano com os que ali trabalhavam, em nome de uma boa gestão dessas propriedades, e estes se recusam a servi-lo, votando-o ao ostracismo e, claro, fazendo com que a situação dessas terras ficasse ainda pior. Esta forma de luta foi depois usada para causas onde o interesse colectivo se punha em primeiro plano, não sem óbvias privações para quem boicota, e servindo actualmente sobretudo para combater monopólios, ou seja interesses financeiros lesivos do bem-estar social. O boicote é uma forma extrema de luta que, banalizada e pondo em causa instituições geridas por dinheiros públicos, se torna perigosa para uma sociedade democrática. Para além de, por isso mesmo, ser consequentemente uma atitude deseducativa que promove o descompromisso, interrompe a procura de alternativas equilibradas e desmotiva aqueles que mais do que investirem no capital de queixa se poderiam dedicar a procurar soluções para o que motiva a queixa. E tudo isto se passou numa Cidade que se quer continuar a dizer Educadora. Não espero nada de bom de exemplos de desgovernos de proximidade como estes, já que é pelo exemplo daqueles com quem se convive que melhor se educa.

Até para a semana!

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