O truque Salomé

Crónica de Opinião
Terça-feira, 13 Junho 2017
O truque Salomé
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Um pouco por todo o país, cidades, vilas e aldeias, vão nascendo os enfeites da época. Ao lado do cartaz personalizado da empresa imobiliária, alinham-se outros com as poses não menos apelativas, em princípio, das candidatas e candidatos aos diferentes lugares dos órgãos que vão a preencher nas próximas eleições.

As eleições são, ao mesmo tempo, a semana da recepção ao caloiro e da queima das fitas, comparação que quem vive em cidades médias onde há universidades, entenderá bem melhor do que quem vive em cidades universitárias ou nas outras que não têm instituições de ensino superior de espécie alguma. Faço a distinção entre cidades com universidade ou politécnico das que são cidades universitárias, porque mesmo ao fim de muitas décadas, e em alguns casos séculos, nem todos os cidadãos convivem bem com essas instituições que lhes alimentam a vida social e, não menos importante, a económica. E como as Cidades são o resultado do conjunto dos seus Cidadãos, há que identificá-las com aquilo com o que os Cidadãos se identificam. Em Évora, por exemplo, a Universidade não será certamente, ainda, o elemento agregador colectivo do eborense comum que lhe permita intitular-se cidade universitária. Já em Coimbra, creio, não se pode afirmar o mesmo. Mas adiante, que a crónica é sobre cartazes e não sobre universidades.

A espessura das mensagens que se transmitem em cartazes de pendurar ao sol e à lua, como sabemos, não pode desejar-se muita. É o slogan curto que fica, que evoca, ou desequivoca, ou equivoca campanhas com safras melhores ou piores. É a micro-mensagem tantas vezes engolida como um grumo de laranja no sumo do fruto espremido, apenas visível à lupa de quem tenha por gosto ou obrigação procurar os sentidos mais subliminares.

A Salomé Castanheira, candidata à presidência de uma Junta de Freguesia em Águeda, profissional do assunto (não assunto de juntas de freguesia, mas de comunicação com as massas e respectivo ramo do marketing!), já começou a dar cartas, ou melhor cartazes, que logo deram também que falar. Ao apresentar fotografias individuais de gente comum com sorrisos, que se nos apresentam com o seu nome próprio mas que nos pedem, dizendo ainda assim que é uma opção nossa, para os tratarmos por Salomé, a candidata deles. O truque está engraçado e mesmo podendo ser sinónimo de outro slogan, contorna o seu efeito negativo, já que o “Somos todos” qualquer coisa é fruto de outra realidade negra, demasiado presente nos dias que correm.

Se o slogan “Somos todos” qualquer coisa é uma reacção ao terror que se passou, não me deixa menos margem para especular nos mesmo tons cinzentos o “Podem-me chamar Salomé” das autárquicas em Águeda. Tratando-se de uma iniciante nas lides – novata ou noviça que, ainda assim, como ela própria diz na sua reacção ao efeito viral da gramática propagandística que escolheu, será “só” presidente de Junta – a identificação dos seus fregueses com ela não é já só uma reacção, mas uma projecção. Eu cá se fosse aos fregueses daquela parte de Águeda pensava mesmo bem antes de deixar que me tratassem por Salomé… É que a mais famosa das “Salomés” que conheço mora no Novo Testamento e é apontada como responsável pela execução do profeta João Baptista ao seduzir, com danças e meneios, o velho tetrarca Herodes. Ai Salomé, Salomé! o mal que nos deixaste ficar a nós, também mulheres…

Atenção, pois, aos meneios e sorrisos e truques propagandísticos e não se deixem levar a brincar à Democracia. Que nada disto vos impeça de querer saber para escolher e de saber exactamente a quem vão pedir que vos preste contas. Até para a semana.

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