Olhar as pequenas coisas

Quinta-feira, 01 Novembro 2018
Olhar as pequenas coisas

 

 

A propósito do resultado eleitoral no Brasil, acentuou-se a discussão sobre as razões dos avanços dos fascismos em diversos pontos deste atormentado mundo.

Não deixa de ser irónico que a maioria das análises, comentários, elucubrações e palpites não se foquem no essencial e se entretenham a encontrar possíveis explicações no que é assessório, conjuntural e lugar-comum.

Preocupa-me a divulgação e aceitação generalizada de opiniões que desvalorizam os perigos e ameaças, comparando as formas de representação dos fascismos do século vinte com as actuais, para concluir que se trata de fenómenos diferentes, fugindo à observação e constatação de que a base ideológica e social é a mesma.

Lá porque um qualquer Bolsonoro não faz a saudação romana ou um qualquer político português mantém na naftalina a farda da Legião ou da Mocidade, não significa que o caminho e as suas consequências sejam diferentes.

Quando se acha normal que sejam divulgadas conversas telefónicas privadas e que o crime seja relevado em nome da curiosidade sobre o seu conteúdo, estamos no caminho que leva à aceitação da supressão da liberdade.

Quando entra na discussão o facto de uma deputada ter sido fotografada a, supostamente, pintar as unhas durante a discussão do Orçamento de Estado e é apresentado como exemplo de desinteresse passando a imagem de que ali nada se faz e não passa de um coio de malandros, está-se a promover aquilo que leva ao cozinhar do caldo de onde nascem os fascismos.

Aquilo que deveria ser uma mera curiosidade e alvo de algum humor, é colocado na discussão, como central no funcionamento da democracia, enquanto que qualquer intervenção feita pela deputada sobre os temas em discussão é varrida para um qualquer canto que não merecerá comentário, excepto se a senhora disser algo de desinteressante e sonante.

Dizem os moralistas que se a conversa telefónica não tivesse acontecido não teria sido gravada e divulgada e que se a senhora não tivesse passado o pincel na unha, o jornalista da Reuters não teria registado o momento. Claro que não, mas ao alinharmos neste pensamento estaremos a legitimar uma sociedade de vigilantes e de vigiados e, pior ainda, de justiceiros e lá se vai o princípio da legalidade a que todos deveremos estar sujeitos, substituído pelo princípio do “certo e errado” à medida de cada um ou, pior, de cada onda que se levante.

É possível travar este caminho? Tem que ser, mas sem tibiezas nem justificações. Não cedendo a tentações de alinhar na moda de pegar numa qualquer notícia, verdadeira ou falsa, e gritar “vergonha” ou “indignação” para chamar a atenção do vizinho ou para garantir que não destoamos do resto do rebanho.

Como alguém afirma, o fascismo até se pode discutir e analisar mas essencialmente combate-se.

Até para a semana