Os 200 anos do jovem Marx

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 15 Fevereiro 2018
Os 200 anos do jovem Marx
  • Eduardo Luciano

Esta é mais uma crónica fora de moda. Daquelas que ninguém irá ler e os que a começarem a ouvir irão mudar de antena rapidamente.
Com toda coisa interessante para comentar, tanto processo judicial a correr termos, tanto arguido para odiar, tanto estudo que conclui coisas tão interessantes, tanta poça de lama misturada com excrementos onde se possa chafurdar, logo me iria lembrar que este é o ano em que Karl Marx comemoraria 200 anos, se tivesse envelhecido tanto.
Quando passam dois séculos sobre um qualquer acontecimento é de bom-tom referirmo-nos a ele, embora se desconheçam as condições particulares em que a mãe do Karl o tenha atirado ao mundo.
Duzentos anos depois do seu nascimento e muitos anos depois das suas obras terem sido escritas, muitos são aqueles que se reclamam seguidores das suas teorias, dos seus métodos de análise, da sua leitura da evolução histórica deste mundo que habitamos.
Alguns reclamam-se adeptos da sua visão sem nunca terem lido uma única linha do que escreveu, a solo ou a dois cérebros com Engels. São marxistas por mera intuição, por engajamento ou por necessidade de pertença a um pensamento colectivo que os conforte.
Outros são ferozmente anti marxistas, acusando o velho mestre de resultados que não conseguiu prever e não lhe perdoando o ter armado uma classe social com uma teoria que prediz a inevitabilidade da destruição desta ordem social e do caminho da substituição da burguesia pelo proletariado, como classe dominante. Também nunca o leram.
Há ainda aqueles, de uma certa esquerda, que se reclamam de pós marxistas, envergonhando-se do que dizem ser um legado que afirmam ter arrumado num qualquer canto da sua caixa de referências. Estes costumam ler Marx nas notas de rodapé das obras que consultam avidamente, mesmo sabendo que estão a ler o autor pelos óculos embaciados de uma pequena burguesia que acha que existe um plano B para salvar o modo de produção capitalista.
Também há os que lêem Marx a retalho, encontrando sempre uma citação que pode ser usada em qualquer momento, aplicada como uma cartilha, esquecendo-se que os princípios do materialismo dialéctico se aplicam em todas as circunstâncias e não apenas quando nos dão jeito.
No ano em que se comemoram os duzentos anos do seu nascimento, Marx merecia que o lessem e o estudassem. Que dessa leitura resultasse a clarividência de que as suas descobertas e aprofundamentos contêm em si instrumentos de análise que permitem armar, ainda hoje, a classe dominada de ferramentas essenciais para a compreensão da realidade política, económica e social.
Lenine escreveu “A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao «sectarismo», no sentido de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial.”
Ler ou reler os seus textos poderá ser surpreendente para todos os que referi porque, como diria a minha prima Zulmira, o ópio do povo, mais do que a ignorância, é a falta de vontade de questionar que resulta da fragilidade das nossas convicções.
Já viram que bela crónica que saiu no dia dos namorados?

Até para a semana

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